segunda-feira, 17 de fevereiro de 2020

Comemoração da memória de Martinho Lutero (18 de Fevereiro)


                Martin Luder nasceu em 10 de Novembro de 1483, em Eisleben, na Alemanha central. Alemanha que, como unidade política, não existia. Seu atual território, juntamente com porções dos Países Baixos, norte da Itália e Europa Central, compunham uma união conhecida como Sacro Império Romano-Germânico, cujo imperador acumulava enorme poder no continente. Cada região/província/unidade dentro do Império era governada por um príncipe, duque ou arcebispo, que dispunha de certa autonomia em seus domínios. Era uma situação política complexa, que podia ser chamada de "colcha de retalhos".

                O mundo estava em transformação. A chegada dos europeus à América recém-descoberta; o movimento artístico-cultural do Renascimento; o desenvolvimento das Ciências; novas técnicas militares; a centralização das monarquias, os esforços bélicos contra os turcos;o contato com as grandes civilizações da África( Abissínia) e Oriente (Índias, China, Molucas e Japão). a invenção da imprensa; questionamentos religiosos de teólogos como Jan Hus e Girolamo Savonarola...Tudo mudava rapidamente.

                Martin era filho de Hans Luder, operário que, com muito esforço, consegui dar certo nível de seguridade à família e educação para os filhos.Hans queria muito que o filho fosse "alguém na vida", e se empenhava em custear seus estudos. Era no entanto, severo e brutal na disciplina e castigos. O jovem Martin estudou em escolas diversas, aprendeu o latim, formou-se bacharel e mestre em Artes, iniciando então os estudos de Direito, o que era de agrado do pai.

                No ano de 1505, com muitas questões na mente, Lutero passa ainda por uma experiência traumática. Após quase morrer atingido por um raio durante uma tempestade, promete a Santa Ana(segundo a Tradição cristã, era a mãe da bendita Virgem Maria) consagrar a vida à religião. Contra a vontade o pai, ingressa do Convento Negro dos Agostianianos, em Erfurt, sendo ordenado sacerdote em 1507. Devido à sua mente brilhante e cumprimento férreo dos deveres religiosos, acumulou cargos diversos. No entanto, o monge não sentia paz ou alegria em sua fé. Ao contrário de
Lutero em Erfurt.
outros monges do passado , a quem tanto admirava, como S. Bernardo de Claraval, Lutero só conseguia enxergar um Deus irado, severo e implacável. A Lei sem o Evangelho. A penitência sem a graça. O esforço sem o Espírito. Sua viagem a Roma tornou-o mais confuso: muitos dos clérigos e religiosos da cidade viviam em devassidão moral e crimes. A simonia e a superstição eram estimuladas. Os pontificados imorais de Alexandre VI e Júlio II constituíram uma triste mancha na Cristandade. O zelo e fé de pontífices como Inocencio III eram apenas lembranças vagas. Santos sacerdotes, monges e freiras escreviam e exortavam ao povo e à hierarquia da Igreja, derramando perante Deus as suas lágrimas em favor da Cristandade. Os "Diálogos" de Sta. Catarina de Sena são um testemunho pungente e profundo dessas almas piedosas, leais filhos de Deus e da Igreja.

                Certamente Lutero já havia lido muitas vezes as Escrituras em 1510. Além de sacerdote, era doutor em Teologia, e conhecia o latim muito bem. No entanto, o sentido do Evangelho não penetrara sua alma ferida e confusa. Ao analisar, com cuidado, o verso escríto pelo apóstolo S. Paulo , na epístola aos Romanos, de que "o justo viverá pela fé", compreendeu o que era realmente a justiça de Deus, que tanto o atemorizava. A salvação não era um prêmio a ser conquistado, mas um dom a ser recebido. As doutrinas da justificação pela fé apenas (sola fide), distinção entre Lei e Evangelho e a liberdade cristã são decorrentes dessa descoberta inicial. Resumindo o período, Lutero acumulou as funções de pároco municipal e professor universitário de teologia em Wittemberg, aonde o príncipe da região (Saxônia), o culto Frederico, estimulava o estudo e o conhecimento. Padre Luder deu aulas de exposição das Escrituras, às quais agora entendia com clareza, e não apenas na letra morta. Posteriormente, adaptaria seu sobrenome, Luder, para "Luther", num trocadilho com o termo grego para "liberto" (eleutherios).

                As indulgências, perdão eclesiástico concedido aos vivos ou aos mortos que padeciam no purgatório, eram baseadas num esquema de boas obras e méritos que poderiam ser transferidos dos santos na glória para os que não eram "perfeitos". Existiam há algum tempo na Igreja. O escândalo deu-se quando passaram a ser negociadas com dinheiro. Quanto o espalhafatoso frade dominicano Johann Tetzel chegou a Wittemberg, com suas promessas mirabolantes e declarações blasfemas contra Cristo e a Virgem, Luder encaminhou 95 Teses ao arcebispo de Mainz. Sendo sinceramente leal à Igreja e ao papa, pensava que a alta hierarquia iria combater os abusos dos vendedores de indulgências. Foi uma total decepção. Apesar de Tetzel ter sido severamente reprimido, a Igreja alegou que o erro de Luder era desfiar a autoridade do papa. Até então, ele fora fiel aos dogmas estabelecidos, mas com o passar dos anos opôs-se cada vez mais aos desvios acumulados desde a Idade Média.

                É de vital importância salientar que Lutero nunca quis criar uma nova religião ou igreja. Estudante assíduo dos Pais da Igreja Antiga(como Cipriano e Agostinho) e dos teólogos medievais (especialmente o já citado São Bernardo), cria firmemente na eficácia dos sacramentos, na continuidade histórica ininterrupta da Igreja de Cristo (conforme a promessa de Mateus 16) e conservou a maior parte da liturgia histórica. Ele desejava apenas purificar a Igreja Cristã (Católica) de todos os tempos dos abusos e excessos instituídos pelo papado ao longo dos séculos. Ao ser perseguido, condenado e excomungado por isso, foi forçado a assumir as rédeas de um novo ramo da Cristandade, que, contra sua vontade, passariam a ser conhecidos como "luteranos".

                Na década de 1520, escreveu livros diversos, como o "Magnificat", expondo a compreensão evangélica sobre a santa Mãe de Deus; "Do Cativeiro Babilônico da Igreja", no qual manteve apenas dois sacramentos oficiais (batismo e eucaristia), mantendo porém a penitência (confissão) em status elevado; e "Da Liberdade Cristã", que expressa a máxima " o cristão é senhor de tudo pela fé, mas servo de todos pelo amor". Músico habilidoso, escreveu/compôs/adpatou cerca de 37 hinos e cânticos ao longo da vida (sendo o mais famoso Ein Feste Burg, conhecido como " a Marselhesa da Reforma"), possibilitando aos cristãos alemães louvarem e suplicarem a Deus em sua própria língua e sem os processos intrincados do canto gregoriano da época.
Pintura de época representando um culto luterano.

                A sua tradução das Sagradas Escrituras deu uma base racional e unificadora para a língua alemã. Compositores como Bach, Mendelssohn e Brahms utilizaram a Bíblia de Lutero como fonte das letras de suas composições. O reformador era um grande defensor da necessidade de educação escolar e acadêmica para crianças e jovens. Um de seus tratados possui o nome de "Exortação aos pais para que mandem os filhos à escola". No entanto, também defendia que os jovens deveriam se divertir, brincar e dançar.E com a ajuda do amigo mais jovem, o brilhante Filipe Melancton, foram escritos os documentos mais importantes da teologia confessional luterana.

                Casando com a ex-monja cisterciense Katherine von Bora, desfiou as restrições da época ao casamento de clérigos. Tiveram seis filhos, vivendo rodeados de parentes, amigos e estudantes. Lutero faleceu em 18 de Fevereiro de 1546, numa viagem para mediar o conflito entre dois nobres, que eram irmãos de sangue. Sua última palavra foi um "sim", em resposta a pergunta do amigo Justus Jonas:



                "Reverendo Padre, quereis morrer firmado em Cristo e na doutrina que em seu nome ensinaste?"

O papa Francisco homenageia Lutero.
                Lutero foi um grande cristão e pastor da Igreja de Cristo. Ao mesmo tempo, como ele mesmo reconhecia, um miserável pecador. Irritava-se com facilidade, falava de modo grosseiro e se desentendia de maneira rude com outros teólogos (especialmente o suíço Zuinglio e os "profetas" anabatistas).. Seu polêmico livro sobre os judeus, a Guerra dos Camponeses e os conturbados relacionamentos conjugais do príncipe Filipe de Hesse (seu protetor e admirador), foram algumas das chamadas "manchas negras" na vida do reformador. Depois de quase cinco séculos, é considerado uma das personagens mais influentes da História, um homem que mudou o curso não só do Cristianismo, mas de toda a civilização. Reconhecido, pelo menos em certos aspectos, por pensadores tão diversos quanto Karl Marx e Goethe, foi homenageado recentemente até mesmo pelo líder da Igreja Católica Romana, o papa Francisco, onde cada vez mais tem sido visto como "um fiel filho da Igreja". Os avanços no diálogo ecumênico levaram católicos e protestantes a perceber que terminologias confusas, preconceitos e inflexibilidade constituíram boa parte das razões para esse triste ódio entre irmãos que se manteve por todo esse tempo. A Declaração Conjunta sobre a Justificação pela Fé (1999), assinada por católicos, luterano e (posteriormente) metodistas é um exemplo dessa reaproximação.


Oremos: Graças de damos, Deus de amor e justiça, pela vida do Bem-Aventurado Martinho Lutero, reformador da Santa Igreja Católica. Que ao seu exemplo de dedicação ao Evangelho e reconhecimento de seus pecados e indignidade, possamos seguir em comunhão com os cristãos de todos os grupos, avaliando a luz da vontade divina o legado de teu servo. Por nosso amado Senhor Jesus Cristo. Amém.



BIBLIOGRAFIA RECOMENDADA:
Obras Selecionadas. Comissão Interluterana de Literatura;
LUTERO, Martinho.  Magnificat -o Louvor de Maria. Editora Santuário; Editora Sinodal
LUTERO, Martinho. Do Cativeiro Babilônico da Igreja. Martin Claret
Clássicos da Reforma - Martinho Lutero - Uma coletânea de escritos. Editora Vida Nova
TILLICH, Paul. História do Pensamento Cristão, Editora ASTE
GEORGE, Timothy. Teologia dos Reformadores.  Editora Vida Nova.
CÉSAR, Elben M. Lenz. Conversas com Lutero.  Editora Ultimato

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