sábado, 19 de maio de 2018

Liturgias protestantes: da Reforma aos dias de hoje(2)


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Liturgia luterana em pintura do século XVI
      A Reforma luterana, iniciada na Alemanha e de lá propagada para os países escandinavos e bálticos, foi a que mais conservou semelhança estética com a missa medieval. As imagens (apenas para fins estéticos e como inspiração), vestes e gestos (como o sinal-da-cruz) foram em grande medida, preservados. Em 1523, Lutero publicou uma liturgia chamada de Formula Missae, que excluía o caráter sacrificial da missa. Em 1526, publicou a “Missa Alemã”. O reformador de Wittemberg também publicaria uma liturgia batismal, que incluía vários costumes católicos, como o sinal-da-cruz, a procissão na igreja, o sal e o exorcismo1(curiosamente, o reformador defendia que as crianças fossem batizadas por imersão, como acontece nas Igrejas Ortodoxas). Em 1529, publicou uma liturgia matrimonial. Foram feitas grandes mudanças para que Deus fosse cultuado de forma mais pura, e o povo fosse edificado. O sermão passou a ter grande importância, as orações recitadas foram traduzidas para a língua comum. Um documento confessional luterano diz:

Injustamente são ao nossos acusados de haverem abolido a missa. Pois é manifesto, sem jactância, que a missa entre nós é celebrada com maior devoção e seriedade que entre os adversários. E as pessoas também são instruídas muitas vezes e com o máximo zelo sobre o santo sacramento, para que foi instituído e como deve ser usado, a saber, a fim de com ele consolar as consciências atemorizadas, através do que o povo é atraído para a comunhão e missa. Ao mesmo tempo também se dá instrução contra outras, errôneas doutrinas concernentes ao sacramento.(Confissão de Augsburgo art. 24 Da Missa)

       Até mesmo a confissão auricular foi mantida, no entanto, sem caráter de sacramento ou necessidade para a remissão dos pecados.  Ainda hoje é possível encontrar confessionários em algumas igrejas luteranas.

        Uma mudança significativa foi a introdução da comunhão em ambas as espécies, que Lutero defendeu vigorosamente em seu primeiro tratado criticando a teologia sacramental de Roma:

Mas, imagina-te que eu estivesse no lado oposto e interrogasse meus senhores papistas: Todo o Sacramento, ou seja ambas as espécies, na Ceia do Senhor foi dado apenas aos presbíteros ou simultaneamente aos leigos? Caso tenha sido dado apenas aos presbíteros (como eles pretendem), então de nenhum modo é lícito dar uma espécie aos leigos. Pois, não se deve dar temerariamente àqueles a quem Cristo, na primeira instituição, não deu. Por outro lado, se permitirmos que se modifique uma só instituição de Cristo, invalidamos todas as suas leis, e qualquer um ousaria dizer que ele não está preso a nenhuma de suas leis ou instituições. Pois uma particularidade anula na Escritura até o mais universal. Se, porém, (ambas as espécies) foram dadas simultaneamente também aos leigos, depreende-se inevitavelmente (deste fato) que não se deve negar ambas as espécies aos leigos.(LUTERO, Martinho – Do cativeiro babilônico da Igreja)

Partitura do hino Ein Feste Burg em hinário do século XVI
Em relação a música, precisamos analisar com mais cuidado e tempo. Lutero, quando criança, usava sua bela voz para cantar e conseguir um dinheiro com isso, para ajudar o pai. Mais tarde, iria aprender a tocar alaúde e cantaria como tenor no coro monástico. Sua forte ligação com a música repercutiria naqueles que, depois de sua forte, seriam conhecidos como “luteranos”. Novos hinos foram traduzidos/escritos/compostos, para que toda a congregação pudesse adorar a Deus diretamente. O próprio Lutero foi o autor/tradutor de trinta e sete deles, sendo o mais popular Ein Feste Burg (Castelo Forte), que seria, ao longo dos séculos, traduzido para vários idiomas, sendo chamado por um historiador de “A Marselhesa da Reforma”. Esse tipo de música, por vezes harmonizada a quatro vozes, simples, porém reverente, com influências do canto gregoriano e da música popular germânica, ficaria conhecido como "coral alemão". Em 1524, foi compilado o “AchtliederBuch”, primeiro hinário luterano. No entanto, ao contrário da reforma calvinista, a reforma luterana conservou os coros profissionais, para que realizassem parte do culto. Entre as gerações seguintes, surgiriam grandes mestres da música sacra, como Henrich Schütz, Michael Praetorius, Johann Pachelbel e Johann Sebastian Bach, que fariam um uso inspirado e criativo de corais, solistas, órgãos e orquestras. O culto aos santos foi encerrado, embora se conservassem memórias deles para fins de edificação e inspiração dos fiéis. Os luteranos também se utilizaram do calendário litúrgico, que relembra os grandes atos de Deus na redenção, principalmente através da vida de Cristo. Assim sendo, a observação da Quaresma, da Semana Santa e as festas da Páscoa, do Natal e do Pentecostes, entre outras, foram preservadas e adpatadas para maior edificação dos fiéis.( várias das cantatas de Bach serviam para acompanhar o calendário litúrgico).

      Existe até mesmo uma história controversa de que Lutero teria sido o inventor da Árvore de Natal. Sabemos que o reformador de Wittemberg fez uso de presépios, mas sobre a árvore de Natal, os estudos são controversos (alguns afirmam que já era um costume entre os fiéis pré-Reforma, enquanto outros afirmam ser algo mais tardio). Séculos depois, os luteranos iniciariam o tradicional costume da coroa do Advento.

Lutero pregando o Cristo crucificado
      Lutero introduziu como elemento fundamental do culto, além da eucaristia, a leitura e pregação da Palavra. Traduziu a Bíblia para o alemão. Nas décadas seguintes, outros reformadores de linha luterana traduziram a Bíblia para suas respectivas línguas, como Olaus Petri (sueco) e Mikael Agricola (finlandês). Lutero também estimulava os pregadores para que lessem as Escrituras, desenvolvessem habilidades de hermenêutica e homilética, consultassem bons livros e pregassem na linguagem do povo, para que todos fossem edificados pela Palavra de Deus.

      A arte sacra seria defendida por Lutero. Em seus escritos, Lutero condenou o movimento iconoclasta (que se opunha às imagens sacras). Assim sendo, até hoje, em muitas igrejas luteranas da Europa, podemos contemplar imagens medievais Vejamos as próprias palavras do reformador

“Quando eu escuto falar de Cristo, uma imagem de um homem pendurado   numa cruz  toma meu coração, assim como o reflexo de meu rosto aparece   naturalmente na água quando eu olho nela. Se não é pecado, mas sim bom em ter uma imagem de Cristo  em meu coração, porque deveria ser um pecado de tê-lo em meus olhos?”(LUTERO, Martinho – Contra os profetas celestiais).
      Em matéria de arte sacra, Lutero contaria com dois amigos pintores como seus discípulos: Lucas Cranach e Albrecht Durer. Cranach não apenas pintou quadros e altares, mas também foi o responsável pelos desenhos e gravuras usados na propaganda luterana contra os católicos, incluindo uma série sobre a diferença entre Cristo e o Anticristo (que seria o papado). O pintor alemão também é o autor do célebre retrato de Lutero, que todos nós conhecemos.

     Para entender a conservação de boa parte dos ritos católicos por Lutero, temos que entender o princípio que o reformador utilizou e o seu conceito de adiáforas. Lutero dizia que, em matéria de liturgia, devemos utilizar tudo aquilo que está na Bíblia, e podemos usar aquilo que não se opõe a mensagem bíblica, e com o passar dos anos se mostrou proveitoso para os fiéis. As chamadas adiáforas, coisas que a Bíblia nem ensina, nem condena, devem ser examinadas e utilizadas para a glória de Deus. Assim sendo, nas igrejas luteranas, é costume observar, além dos itens que elenquei no início, vários tipos de costumes em datas específicas do calendário litúrgico, como as palmas no Domingo de Ramos, as cinzas na primeira quarta-feira da Quaresma e o círio pascal na comemoração da ressurreição do Senhor.

       No próximo artigo, estudaremos a visão litúrgica dos reformadores suíços (especialmente Calvino) , que se espalharia pelas igrejas inspiradas por eles.



1Exorcismo aqui não se refere a prática de expulsar demônios que possuem os corpos de pessoas, mas sim de consagrar a criança a Deus, declarando-a liberta do poder maligno sob o qual todo filho de Adão  nasce.

domingo, 6 de maio de 2018

Liturgias protestantes: da Reforma aos dias de hoje(1)


        Do mesmo modo que criticavam os erros doutrinários e morais do papado, todos os reformadores também se levantaram contras aspectos indigestos da liturgia católica de sua época. Apesar das diferenças entre as quatro grandes famílias protestantes surgidas da Reforma (veremos as particularidades posteriormente), todos concordavam que as liturgias deveriam ser celebradas em línguas que o povo comum entendesse, que não deveria ser tributado culto à Maria e aos santos e que a Bíblia deveria ser mais traduzida, utilizada e pregada.Planejo publicar os seguintes tópicos:

  • A Liturgia católica na época da Reforma
  • A Liturgia na Reforma luterana
  • A Liturgia na Reforma suíça (e nas igrejas calvinistas)
  • A Liturgia na Reforma anglicana
  • O desenvolvimento das liturgias protestantes ao longo dos séculos
  • As liturgias protestantes em nossos dias
  • Comentários e observações pessoais minhas

            Para começar, vejamos como era a liturgia católica da época:

         Em toda a Igreja Latina, que dominava a maior parte da Europa, o culto divino, chamado de "Santa Missa", era visto como uma boa obra. O seu ápice era o sacrifício eucarístico, no qual o presbítero realizava um "upgrade" do sacrifício de Cristo, para a remissão dos pecados dos vivos e dos mortos. Tal ideia era baseada na terminologia e conceitos de alguns Pais da Igreja:
"Em seguida, oramos pelos santos padres e bispos que faleceram, e em geral por todos os que adormeceram antes de nós, acreditando que haverá muito grande benefício para as almas, em favor das quais a súplica é oferecida (...) apresentamos o Cristo imolado pelos nossos pecados, tornando propício, para eles e para nós, o Deus amigo dos homens." (CIRILO de Jerusalém, Catequeses mistagógicas).
        Nesse processo, a teologia católica também dizia que a substância do pão e do vinho desapareciam, mantendo apenas a aparência desses elementos, tornando-se a substância no corpo. sangue, alma e divindade de Cristo. Apesar de, até hoje, os apologistas católicos afirmarem que esse processo, chamado de transubstanciação, era crido pelos primeiros Pais da Igreja, sua origem pode ser atribuída apenas a teólogos medievais, especialmente Pascasio Radberto (785-865), e só foi dogmatizada de forma definitiva no século XIII (sendo que uma sofisticada defesa sua se originou dos escritos de Tomás de Aquino)  Vejamos o que os cânones do Quarto Concílio de Latrão(1215) dizem sobre o assunto
 “Há uma Universal Igreja dos fiéis, fora da qual absolutamente não há salvação. Na qual é ao mesmo tempo sacerdote e sacrifício, Jesus Cristo, cujo corpo e sangue estão verdadeiramente contidos no sacramento do altar sob as formas de pão e vinho; o pão sendo mudado (transubstantiatio) pelo divino poder no corpo, e o vinho no sangue (...) E este sacramento ninguém pode efetivar exceto o sacerdote que foi legitimamente ordenado de acordo com as chaves da Igreja” (Cânon I, do IV Concílio de Latrão).
O culto medieval possuía um clima de mistério e pompa
       O povo praticamente não participava, pois a liturgia toda era celebrada em latim. A situação da igreja na época era tão vergonhosa que, por vezes, nem os padres sabiam celebrá-la. Bernardino de Siena, famoso frade e pregador, conta-nos de um sacerdote que não conhecia o latim, sabendo recitar apenas a ave-maria nesse idioma. Por isso, passava a missa toda repetindo essa prece.  Tudo era programado para estimular fortemente os sentidos. As imagens, fosse a do Cristo crucificado no altar,as dos santos nos vitrais e esculturas e relevos da mãe do Senhor, eram vistas como "a Bíblia dos analfabetos", e eram usadas para produzir emoções no povo.  Junto às imagens, os múltiplos gestos e rituais produziam um grande espetáculo para os olhos.
O olfato era ativado pelo uso do incenso, baseado no Antigo Testamento. A música sacra, baseada no canto gregoriano e nos motetos polifônicos de grandes mestres, era belíssima mas, infelizmente, produzia no povo apenas a força de impressão, mas não a força de expressão, visto que era entoada em língua desconhecida pelos leigos. Apenas o padre, o acólito e um coro profissional cantavam.

        Os presbíteros eram chamados de sacerdotes, pois só eles poderiam oferecer o sacrifício eucarístico, que, como já vimos, teria valor salvífico. Era costume dizer que, devido a essa grande função, em certo sentido os sacerdotes superavam o poder dos anjos, O místico católico Tomás de Kempis (1380-1471), em sua clássica obra de espiritualidade, reflete a crença no status elevado dos ministros:

“Grande mistério e sublime dignidade dos sacerdotes, aos quais é dado o que aos anjos não é concedido! Pois só os sacerdotes, validamente ordenados na Igreja, têm o poder de celebrar e consagrar o corpo de Cristo”.(KEMPIS, Tomás de, Imitação de Cristo).

        Um ponto espinhoso na liturgia e teologia da época era a negação do cálice aos leigos. Violando os princípios das Sagradas Escrituras e até mesmo da Tradição dos Pais, a Igreja Ocidental passou a dar aos fiéis apenas a hóstia. Vale lembrar que a Igreja Católica do Oriente (Ortodoxa) continuava dando os dois elementos aos fiéis. Pouco antes de Lutero surgir, o povo da região da Boêmia havia conseguido, depois de violentos confrontos, que lhes fosse oferecido o cálice (O pré-reformador boêmio Jan Hus havia defendido a comunhão com os dois elementos), mas no resto da Europa, a comunhão era em apenas uma espécie

        As vestes do sacerdote eram suntuosas, e cada gesto da missa era estabelecido para que todos tivessem noção da grandiosa majestade de Deus e da santidade da Igreja. O sermão, uma das poucas partes que era feita no vernáculo, muitas vezes era omitido pelo sacerdote (isso mesmo, missas sem sermão). Este, quando era feito, muitas vezes era decepcionante. Registros da época relatam que era comum os padres pregarem que os fiéis deveriam venerar os santos todos igualmente, pois caso venerassem apenas alguns, os outros poderiam ficar enciumados, e castigariam duramente os cristãos. O povo, mais ignorante ainda, acreditava nas coisas mais absurdas. Havia quem afirmasse que os humanos não envelheciam enquanto permaneciam na missa. Outros diziam que bastava olhar uma estátua de S. Cristóvão, e pelo resto do dia se estaria protegido de sofrer acidentes. Ao lado do culto absoluto à Deus, havia o culto relativo aos santos , suas imagens e relíquias (restos mortais e objetos de uso), às quais eram atribuídos muitos milagres e curas de enfermidades.

        O calendário litúrgico celebrava o mover de Deus na redenção, principalmente através da vida de Cristo. Mas às grandes festas cristãs defendidas pelos Pais dos seis primeiros séculos da Igreja, foram acrescidas uma série de comemorações em honra à Maria e aos santos, além da festa de Corpus Christi, originária do século XIII, que celebrava o mistério da transubstanciação.

        Em resumo, a liturgia medieval era bela, reverente e nobre, mas lhe faltava edificar o povo que, entendendo pouco do que se realizava, passava o tempo rezando o rosário, outra invenção do século XIII. Uma série de superstições em relação a objetos e aos santos falecidos também havia sido acrescida. No próximo artigo, veremos como a Reforma luterana transformou as celebrações litúrgicas nos espaços em que se desenvolveu.

segunda-feira, 9 de abril de 2018

09/04 - Memória de Dietrich Bonhoeffer

Dietrich-B.jpgHoje nos lembramos do martírio de Dietrich Bonhoeffer (1906-1945). Filho de um bem-sucedido psiquiatra e de uma piedosa mulher, o jovem Dietrich decidiu seguir carreira ministerial, tendo se formado em teologia pela renomada Universidade de Tübingen. Fez seu doutorado na Universidade de Berlim, com a tese Sanctorum Communio (1927), sendo aluno de Adolf von Harnack. Entre os pontos de destaque na teologia de Bonhoeffer, temos a centralidade da revelação de Deus em Cristo e a importância do aspecto comunitário da fé cristã.

Bonhoeffer viveu no período mais negro da história alemã: a ascenção do Terceiro Reich (1933-1945). Desde o princípio, preocupou-se com esse governo, que pretendia ser o "novo messias" do povo alemão. Em 1934, tornou-se um dos membros fundadores da Igreja Confessante, que permaneceu fiel a Cristo, enquanto boa parte da igreja protestante alemã apostatou-se, seguindo Hitler.  Nesse período, produziu duas de suas principais obras, Discipulado (1937) e Vida em Comunhão (1939). Tornou-se um oponente da Teologia Liberal. Em 1935, criou um seminário teológico em Zingst, cujas características e organização seriam base para o renascimento do monasticismo entre os protestantes da Europa e EUA.

Envolvido numa conspiração contra o próprio Hitler, Bonhoeffer foi preso em 1943. Depois de 18 meses encarcerado (mesmo assim, produzindo muitas cartas que estão entre seus melhores escritos), foi condenado e executado por enforcamento.

Em Discipulado, considerado sua obra-prima, Bonhoeffer combate àquilo que chama de "graça barata", uma distorção do "sola fide" dos reformadores. A graça barata prega perdão sem necessidade de arrependimento, cristianismo sem necessidade de santidade,  fé sem necessidade de transformação. Segue-se um trecho da obra:

"Quando as Escrituras sagradas tratam do discipulado de Jesus, proclamam a libertação do ser humano de todos os preceitos humanos, de tudo que o oprime, de tudo que o sobrecarrega, de tudo que lhe suscita preocupação e dor na consciência. No discipulado, o ser humano deixa o duro jugo de suas próprias leis e vai para o julgo suave de Jesus Cristo. Não está se questionando, com isso, a seriedade do mandamento de Jesus? De maneira nenhuma. É somente na permanência total no mandamento de Jesus, no chamado ao discipulado incondicional, que se torna possível a plena libertação para a comunhão com Jesus. Quem segue integralmente o mandamento de Jesus, quem se permite sem relutância o jugo de Jesus, para esse o fardo a carregar torna-se leve e recebe, na suave pressão desse jugo, a força para percorrer o caminho certo com tranquilidade. O mandamento de Jesus é duro, implacavelmente duro para quem se opõe a ele. Porém, o mandamento de Jesus é suave e leve para aquele que se lhe submete de bom grado. "Os seus mandamentos não são penosos" (1Jo 5.3). O mandamento de Jesus  não consiste em um tipo de tratamento de choque emocional. Jesus nada nos exige sem nos dar a força para fazê-lo. Seu mandamento não visa jamais destruir a vida, mas conservá-la, fortalecê-la e curá-la."

domingo, 1 de abril de 2018

A salvação não exige nada além da fé (verdadeira)


Hoje, escrevo este artigo a fim de defender a doutrina bíblica da justificação/salvação pela fé apenas (conhecida como "sola fide"). Essa doutrina é, a meu ver, a principal marca distintiva do protestantismo, e aquilo que lhe dá toda a coerência lógica e teológica como ramo da Cristandade a parte. Se alguém o negar, e quiser ser coerente, automaticamente deveria abraçar a cosmovisão católica romana ou ortodoxa oriental. Por essa doutrina da "sola fide", muitos foram presos, torturados e queimados vivos. Agora, depois de cinco séculos, muitos dos ditos "protestantes" tentam voltar à opressão e insegurança gerada pela práxis e ensino da Igreja Medieval. Ao afirmarem que podemos perder a salvação por usar bermudas ou barba (para os homens), brincos e batom (para as mulheres), experimentar bebida alcoólica, torcer por um time de futebol, jogar RPG, ou mesmo afirmar com certeza que um verdadeiro cristão que se suicida vai, infalivelmente, para o inferno, muitos pastores estão cuspindo sobre as cinzas dos reformadores.

Vários versículos do NT, especialmente da epístola aos Romanos (que trata de forma especial de temas relativos ao pecado, à graça, à predestinação e à natureza humana) dão base para o ensino apregoado pelos reformadores, de que a salvação independe de nossas obras, sendo pura graça (favor imerecido) da parte de Deus. Vamos conferir alguns deles:

"E todos nós recebemos também da sua plenitude ,e graça por graça" (Jo 1.16)

"Estando nós ainda mortos em nossas ofensas, nos vivificou juntamente com Cristo(pela graça sois salvos, (Ef 2.5)

"Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós ,é dom de Deus" (Ef 2.8)

"Sendo justificados gratuitamente pela sua graça, pela redenção que há em Cristo Jesus" (Rm 3.24)

"...mas o justo pela sua fé viverá" (Hc 2.4)

"Porque nele se descobre a justiça de Deus de fé em fé, como está escrito: Mas o justo viverá da fé. (Rm 1.17)

"Por isso nenhuma carne será justificada diante dele pelas obras da lei, porque pela lei vem o conhecimento do pecado." (Rm 3.20)

"Tendo sido,pois,  justificados pela fé, temos paz com Deus, por nosso Senhor Jesus Cristo;" (Rm 5.1)

"Que diremos pois? Que os gentios, que não buscavam a justiça, alcançaram a justiça? Sim, mas a justiça que é pela fé." (Rm 9.8)

"Ora, sem fé é impossível agradar-lhe..."(Hb 11.6)

"Quem crer e for batizado será salvo (Mc 16.16)

“Todo o que o Pai me dá virá a mim; e o que vem a mim de maneira nenhuma o lançarei fora”.(Jo 6.37).
 

Mas, alguém dirá, e as diversas passagens na qual Cristo afirma que se fizermos/deixarmos de fazer algo (falar mal do irmão, por exemplo) poderemos ganhar ou perder a salvação? É preciso, na interpretação desses versos, usar a distinção entre Lei e Evangelho. Lei é tudo aquilo que nos oferece o perdão e a salvação a partir de nossos próprios méritos, sendo condicional ao cumprimento dos termos por nós. Não está restrita ao bloco de textos que chamamos de Antigo Testamento, mas pode ser encontrada também no Novo, como as passagens aqui tratadas. Tal como o castigo de Tântalo, a Lei nos oferece algo necessário e desejoso que jamais poderemos alcançar por nós mesmos. Já o Evangelho é a promessa amorosa de Deus de redenção gratuita, na qual Ele nos concede a fé dirigida a Ele mesmo, pela qual somos salvos. Nenhuma pessoa em sua sã consciência acharia que pode cumprir todos os mandamentos da Lei instituídos por Cristo. Qual de nós nunca escandalizou ou escandaliza alguém (Mt 18.8)? Confesso que, com meu hábito de assistir televisão, escandalizo os irmãos da Igreja Deus É Amor. Qual de nós nunca chamou/considerou ou chama/considera um irmão como um tolo ou falso cristão (Mt 5.22; Rm 14.4)? Confesso que durante muito tempo, julguei como ímpios meus irmãos católicos romanos e ortodoxos orientais. Nenhum de nós consegue cumprir os mandamentos, nem os da lei mosaica, nem os da lei de Cristo (que, na verdade, não é uma nova lei, como alguns inimigos da "sola fide" costumam dizer, mas sim a antiga lei aperfeiçoada. Sugiro a leitura dos "Estudos no Sermão do Monte", de D.M. Lloyd-Jones para o melhor entendimento desta ligação). O que fazer então, já que se depender de nossa própria obediência, estamos perdidos? Jesus traz a resposta na passagem de Mateus 19.23-26: Para os homens, é impossível que eu e você, pobres pecadores, sejamos salvos (Is 59.2). Mas para Deus, nada é impossível. Assim, quando somos recebidos pelo Pai, somos totalmente perdoados de nossos pecados, recebemos o penhor irrevogável do Espírito Santo (II Co 1.22), e a obediência perfeita de Cristo nos é imputada (Rm 4.5). Somos salvos graciosa e gratuitamente. 

A ideia da salvação através dos próprios méritos é uma constante na história das religiões, pois representa a sabedoria carnal, terrena e diabólica na qual todos os homens estão presos desde o pecado de Adão. Mas a Bíblia nos apresenta outra coisa. Primeiro, ela nos rebaixa até o inferno, nos provando sobejamente que somos indignos, maus e vis, não possuindo aquilo que é necessário para alcançarmos a Deus. Depois, ela nos eleva até o céu, ao dizer que o próprio Deus é quem provê o que é necessário para a nossa salvação.
Mas, Giovani, você não está defendendo o antinomianismo? A Bíblia não nos diz que sem santificação ninguém verá a Deus (Hb 12.14)? Que na Cidade Santa apenas os justos entrarão (Ap 22.15)? Em momento algum eu defendi o antinomianismo! O que digo é que não devemos "por o carro na frente dos bois". As obras e a obediência não são a causa de nossa justificação/salvação, mas a consequência natural desta. Costumo utilizar a seguinte analogia: uma luz não brilha PARA ser luz, mas porque JÁ É luz. Assim sendo, a nossa obediência aos mandamentos de Cristo e as boas obras que realizamos devem brotar naturalmente de uma fé viva e verdadeira, como os frutos brotam naturalmente das árvores (Mt 12.33). Devemos mostrar a nossa fé (causa de nossa justificação) por nossas obras (consequencias de nossa justificação- Tg 2.18). Muitos homens de Deus, como Calvino, Spurgeon e Lloyd-Jones souberam perfeitamente disso, e conciliaram de forma bíblica a doutrina da perseverança dos santos (vulgarmente conhecida como "uma vez salvo, salvo para sempre") com a necessidade (também bíblica) de obediência, mortificação e boas obras. As obras agradáveis a Deus são aquelas que provêm da fé e do amor. Como disse Basílio de Cesareia, se servimos a Deus por medo de punição, somos escravos. Se servirmos visando recompensas, somos mercenários. Essas obras de fé são as obras das quais Tiago fala que, de certo modo,  justificam, pois derivam logicamente da fé verdadeira. Devemos lembrar que o termo grego “dikaioo”, traduzido por “justificação” e afins no NT, pode ter dois significados: reconhecer como justo (nesse sentido, somos justificados pela fé apenas), ou mostrar ser justo (as obras das quais Tiago fala).

No coração dos eleitos de Deus, a doutrina da salvação pela fé apenas, não produz aquela preguiça e indiferença que costuma brotar no coração dos falsos convertidos, mas sim uma gratidão enorme (Sl 116.12) e um desejo amoroso de se amar à Deus cada vez mais, cumprir seus mandamentos e fazer a sua obra. Que o diga Martinho Lutero, que após anos oprimido pelo medo da justiça divina (que ele não compreendia corretamente), encontrou a paz na misericórdia infinita de Deus.

Analisando a "sola fide" historicamente, alguns poderiam argumentar que ela foi criticada pelos Pais da Igreja. Nessa colocação, devemos observar algumas coisas: 1. Os Pais da Igreja, por mais que tenham sido excelentes teólogos e os primeiros exegetas, não eram infalíveis. Como protestantes, aceitamos a Bíblia como única regra de fé. Portanto, se as Escrituras afirmam a sola fide, mesmo que todos os Pais a negassem, ela seria verdade. 2.Em muitos trechos, os Pais parecem afirmar, sim, que a salvação é pela fé apenas, como na I Epístola de Clemente aos Coríntios e na Demonstração da Pregação Apostólica, de Irineu, além de escritos de Agostinho e muitos outros. . 3.Temos que entender que os Pais viveram num período conturbado, em que as heresias gnósticas e maniqueístas, pregando um fatalismo extremo e o antinomianismo, forçaram eles a defender a necessidade de boas obras para a vida cristã. Mas, se eles ressuscitassem na época na Reforma protestante, em que o perigo era exatamente o contrário (excesso dado ao papel humano na salvação), provavelmente teriam manifestado uma outra faceta.

Mesmo na teologia medieval, alguns teólogos tenderam, em seus escritos, para a ênfase na fé como instrumento de justificação, como Bernardo de Claraval (de quem Lutero foi um profundo admirador) e Jerônimo Savonarola (em seu comentário ao "Miserere", o Salmo 51).
Quando eclodiu a Reforma protestante, todos os seus ramos ortodoxos adotaram a doutrina da salvação pela fé apenas como uma marca doutrinária importante. Milhares de almas que viviam oprimidas sob severo legalismo passaram a ter acesso à pregação bíblica e à leitura das Escrituras, descobrindo que Deus salva a todo aquele que verdadeiramente crê nEle, à parte de frágeis obras humanas.

Vejamos alguns trechos de documentos confessionais de igrejas protestantes, que afirmam categoricamente a salvação pela fé apenas:

"Somos reputados justos perante Deus, somente pelo mérito de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo pela Fé, e não por nossos próprios merecidos e obras. Portanto, é doutrina mui saudável e cheia de consolação que somos justificados somente pela Fé, como se expõe mais amplamente na Homilia da Justificação." (39 Artigos de Religião, da Igreja Anglicana)

"I. Os que Deus chama eficazmente, também livremente justifica. Esta justificação não consiste em Deus infundir neles a justiça, mas em perdoar os seus pecados e em considerar e aceitar as suas pessoas como justas. Deus não os justifica em razão de qualquer coisa neles operada ou por eles feita, mas somente em consideração da obra de Cristo; não lhes imputando como justiça a própria fé, o ato de crer ou qualquer outro ato de obediência evangélica, mas imputando-lhes a obediência e a satisfação de Cristo, quando eles o recebem e se firmam nele pela fé, que não têm de si mesmos, mas que é dom de Deus. (Confissão de Fé de Westminster, da Igreja Presbiteriana).

"Ensina-se também que não podemos alcançar remissão do pecado e justiça diante de Deus por mérito, obra e satisfação nossos, porém que recebemos remissão do pecado e nos tornamos justos diante de Deus pela graça, por causa de Cristo, mediante a fé, quando cremos que Cristo padeceu por nós e que por sua causa os pecados nos são perdoados e nos são dadas justiça e vida eterna. Pois Deus quer considerar e atribuir essa fé como justiça diante de si, conforme diz São Paulo em Romanos 3 e 4." (Confissão de Augsburgo, da Igreja Luterana)

"A salvação é nos oferecida pela graça mediante a fé no sacrifício de Jesus  Cristo  na  cruz  do  Calvário.Ela  é  eterna, completa  e  eficaz."(Declaração de Fé, da Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil).

No meio evangélico atual, fortemente influenciado pela heresia semipelagiana, muitos desinformados pensam que são protestantes por não terem imagens na igreja, por não batizarem crianças, por não crerem na presença corporal de Cristo na eucaristia nem na regeneração batismal. Ora, Lutero aceitava tudo isso! Para ele, as grandes marcas de identidade da Reforma que ele e outros desencadearam eram "sola scriptura" (as Escrituras como única regra de fé), "sola gratia" e "sola fide" (salvação apenas pela graça, por meio da fé apenas). Por "sola fide", entendemos que todos os nossos esforços são inúteis para a salvação, devendo nós descansar totalmente na graça de Deus. Significa que obras não salvam. Que a nossa frágil obediência não pode suportar a severidade do juízo de Deus. Em resumo, a fé apenas salva. Calvino levou a "sola fide" ainda mais longe, ao afirmar que um verdadeiro cristão não poderia perder a salvação. A doutrina da salvação pela fé apenas foi uma constante que uniu os reformadores. Não é a forma de batismo, a visão eucarística e o estilo de culto que fazem um protestante, mas a aceitação das cinco solas (além das três já citadas, temos  a "solus Christus"-apenas Cristo, e a "Soli Deo Gloria"-glória somente a Deus).

Notemos que a negação do princípio de que a salvação é pela fé apenas, gerou na Igreja Romana tudo aquilo que, atualmente, nós consideramos errado, e que nos separa dela. Se a salvação não é pela fe apenas, só um tolo afirmaria que tem certeza de salvação. Pois, por mais que nos esforcemos, sempre temos algum erro. E, como disse o apóstolo, se alguém desobedece a um ponto da lei, é como se quebrasse todos. Logo, sem o "sola fide", não posso ter certeza de minha salvação, e devo buscar auxílio em quem ou no que seja mais santo do que eu: santos mortos, a Mãe de Deus, relíquias, a hierarquia da igreja, indulgências, esmolas, boas obras, orações para os falecidos,etc. Assim, o erro mestre do papado foi a negação da salvação pela fé apenas, que pode até mesmo ter se propagado, no passado, pela ambição de bispos corruptos, ansiosos por vender salvação ao povo e ter um rebanho que os seguisse sem questioná-los.

Nosso pastor é Jesus Cristo. E como bom Pastor que é, nunca deixa que suas ovelhas se percam. É normal que as ovelhas se desviem e ajam de maneira como não deveriam, mas o verdadeiro Pastor sempre as levará de volta ao redil. Como Cristo poderia dizer ao Pai, ao lhe entregar o Reino no final de tudo: "Pai, tal ovelha tua comeu o que não devia,  por isso eu não a conduzi até o descanso eterno"? Bons pastores não levam em conta os eventuais desvios das ovelhas, mas sempre as reconduzem ao caminho correto.

Sinceramente, não consigo entender o fato de muitos irmãos, em diversos grupos da Cristandade, negarem a salvação pela fé apenas, diante do tremendo evento da encarnação e do horrível espetáculo da cruz de Cristo. Porque ele sofreu tanto, viveu tão pobremente, foi tão injustiçado, experimentado nas dores e fadigas, e teve que suportar a severidade do juízo do Pai, se em última análise a salvação depende de minha própria perseverança e das obras que faço (ou deixo de fazer, em alguns casos, coisas mínimas)? Você que creu e foi batizado (Mc 16.16), que recebeu o plano de redenção de Cristo e nasceu de novo (Jo 3), não fique angustiado, morrendo de medo de perder a salvação por algum pecado que porventura cometa as vezes. Cristo sofreu demais por você, conhece a sinceridade do teu coração, e é infinitamente sábio. Não dê ouvidos a pastores teologicamente e biblicamente confusos que ficam ensinando que a cada vez que pecamos (mesmo em coisas pequenas), perdemos a salvação. È uma vergonha inominável que, em muitas igrejas evangélicas, alguns pastores ainda julgam dessa maneira. Nossos irmãos católicos estão mais crentes na graça do que estes protestantes de araque, visto que na Igreja de Roma, ao menos há a purificação do purgatório no caso de pecados não muito graves (Aliás, falando nisso, você sabia que a própria Igreja de Roma está avançando nessa matéria? Consulte a "Declaração Conjunta sobre a Doutrina da Justificação").

Com o coração transbordando de gratidão à misericórdia divina, oremos:
Graças te dou, Pai Todo-Poderoso, por me salvares mediante a fé apenas, não levando em conta a debilidade de minha obediência ou de minhas obras. Que eu possa ser fiel a esse chamado, e com o mais puro amor transitar o caminho da santidade e trabalhar em prol do teu reino. Por Cristo, nosso Senhor. Amém.

"Sou chamado? Que trarei
Como oferta ao meu Rei?
Pobre, cego e nu sou eu,
que, trêmulo, me prostro aos teus pés.
Só o pecado tenho de meu;
Mas pecado não expia pecado.

Fui chamado? - um herdeiro de Deus!
Lavado, remido, por precioso sangue!
Pai, leva-me em tua mão,
Guia-me àquele país melhor,
Onde minha alma estará descansada,
Junto aos braços do meu Salvador."

Antigo hino batista

segunda-feira, 12 de março de 2018

Reteté: O que a Bíblia e a História da Igreja têm a dizer


Resultado de imagem para retetéUltimamente, têm havido no meio evangélico um estranho movimento chamado de "reteté". A própria origem do termo é debatida, sendo possivelmente uma referência zombeteira às línguas estranhas faladas nas igrejas pentecostais. Esse movimento se caracteriza principalmente pelas estranhas manifestações físicas dos fiéis que são atribuidas ao Espírito Santo. Pessoas sapateiam, pulam, rodopiam, caem, gargalham descontroladamente, fazem "aviãozinho" e toda a sorte de estranhos movimentos.Muitos consideram que esse movimento é um "avivamento", algo benéfico a igreja, um "verdadeiro pentecostes", uma "nova unção"(ou "novas unções"). Podemos presenciar, principalmente nas igrejas pentecostais de segunda e terceira onda, coisas estranhas, irracionais e não registradas ou recomendadas na Bíblia. Algumas chegam às raias do absurdo. Uma rápida pesquisa no Youtube nos mostrará os variados moveres atribuídos ao Espírito Santo, sempre acompanhados de ferrenhas discussões e da chacota (plenamente justificável!) dos ímpios.

Meus irmãos,será que o Espírito Santo se manifesta assim? Ora,Deus não é Deus de confusão(I Co 14.33).Será que o doce Consolador,que recebemos no momento de nossa conversão,agiria de forma tão estranha,que não produz edificação (I Co 14.26),mas se trata de um mover quase sempre visto como um fim em si mesmo, sem ser acomapanhado de mudança de vida ou outros sinais que acompanham a pregação do verdadeiro Evangelho, além de causar escândalo(ai daquele por quem vier o escândalo! - Mt 18.7)entre crentes e ímpios? Será que o apóstolo Paulo aprovaria esses estranhos moveres? Claro que não,pois essas manifestações violam claramente o princípio de decência e ordem (I Co 14.40)! Tais moveres não tem base na Bíblia (nenhum apóstolo entrou no reteté, nem registrou em seus escritos a existência de tal prática),nem na história da Igreja.São movimentos de origem humana,surgidos apenas nos últimos séculos.São moveres da emoção.

Emoção? Exatamente.Graças a ela, essas manifestações são comuns nas igrejas evangélicas atuais.Não é preciso ser nenhum psicólogo para chegar á conclusão de que os cultos de hoje favorecem o emocionalismo e o êxtase psíquico.Músicas melosas,letras repetitivas,pregações de auto-ajuda,frases de efeito, orações baseadas apenas no barulho,pregadores praticamente obrigando o povo a "glorificar a Deus em voz alta"(mesmo que a pessoa não esteja disposta a tal ou sentindo de fazê-lo).Todo ambiente é preparado (nem sempre de forma proposital)para dar origem a movimentos emocionais.Vemos isso acontecer também nas várias religiões pagãs, de diversas procedências, como entre os indígenas da América, os povos autóctones da África, os siberianos,etc. Embora, entre esses povos, estranhas manifestações possam ter origem demoníaca, creio que, na esmagadora maioria dos casos, a psicologia e a psiquiatria podem perfeitamente explicar tais moveres. Antes que venham me chamar de incrédulo, creio plenamente no agir do Espírito Santo em nossos dias, mas quase tudo o que vemos pode ser perfeitamente explicado dentro de padrões humanos e explicações racionais. Algumas coisas, como certos tipos de curas de enfermidades, não podem ser explicadas cientificamente, pertencendo ao âmbito do sobrenatural. Mas quase tudo que vemos por aí poderia ser explicado, como eu já registrei, pela psicologia, psiquiatria e neurologia.
Resultado de imagem para retetéAlguém poderia levantar objeções a minha constatação de que esses moveres não estão registrados na Bíblia. Vamos analisá-las:

1. A Bíblia registra que Davi dançou quando a Arca da Aliança era levada para Jerusalém (II Sm 6.14).
R-Tal texto se encontra no Antigo Testamento, no qual as coisas eram muito diferentes. Naquela época, a Arca era o símbolo máximo visível da presença de Deus na terra. Sobre a sua tampa(chamada de propiciatório) era derramado o sangue do supremo sacrifício, uma vez ao ano, que expiava os pecados de Israel, o povo que servia de sacerdote cósmico da raça humana. Mas quando Cristo morreu, o véu do templo foi rasgado, e aquela glória, outrora confinada a santuários terrenos e objetos litúrgicos, tornou-se disponível a todos os fiéis em todas as horas. Ou seja, caso quisermos levar o significado da dança de Davi ao pé da letra, deveríamos dançar todas as vezes que fossemos orar, louvar a Deus, etc. No Novo Testamento, o escritor sagrado dizem que devemos "orar sem cessar" (I Ts 5.17), e "oferecer-nos como sacrifícios vivos"(Rm 12.1) continuamente, mas não nos manda pular, rodopiar ou outras coisas do tipo.

2. A Bíblia relata que, em Pentecostes, os discípulos foram tidos como bêbados (At 2.13). Isso não indica que eles estavam agindo de modo que parecia estranho aos homens(assim como o reteté)?
R-Ao analisarmos toda a passagem, vemos que o que soava estranho para muita gente, era aquela multidão de fiéis falando, ao mesmo tempo, palavras que soavam ininteligíveis aos ouvidos comuns. Eles falaram em várias línguas, de vários povos da terra, cujos falantes estavam presentes nas ruas de Jerusalém naquela ocasião. Assim sendo, o árabe ouvia as grandezas de Deus em árabe, o cretense ouvia as grandezas de Deus em sua língua. Mas para o populacho comum de Jerusalém, as palavras não queriam dizer nada. E o fato de todos falarem ao mesmo tempo, lhes pareceu algo no mínimo curioso. Não temos nenhum registro de pessoas pulando, rodopiando, caindo ou gargalhando. Mesmo que tais coisas tivessem ocorrido na ocasião, nem tudo que ocorreu em Pentecostes foi estabelecido como norma para as demais ocasiões. As línguas de fogo sobre as cabeças dos fiéis não se repetiram, nem em Atos, nem na história do Cristianismo.

3. A Bíblia diz que o homem carnal não compreende as coisas do Espírito (I Co 2.14). Ou seja, as coisas do Espírito são estranhas mesmo, e a zombaria dos ímpios diante do reteté são apenas a prova de que eles não possuem o Espírito.
R-Outro exemplo de texto fora do contexto! Se analisarmos os treze versículos anteriores, vemos que Paulo, ao dizer que o homem carnal não compreende as coisas do Espírito, não estava falando de supostas manifestações de alegria ou de dons espirituais no culto (coisa que ele vai fazer apenas a partir do capítulo 12), mas de toda a grandeza do amor ( que nos é inexplicável) e do propósito eterno de Deus (de salvar seu povo de maneira nunca vista), da salvação vinda cruz (de fato, não nos parece estranho que o onipotente Filho de Deus salve os homens se humilhando e sofrendo vergonhosamente e dolorosamente?).

4. A Bíblia nos diz que devemos nos embriagar do Espírito. E quem está embriagado, age de modo humanamente estranho.
R- Leia corretamente o versículo. Ele nos diz para não nos embriagar-nos com vinho, mas para sermos CHEIOS (e não embriagados) do Espírito (Ef 5.18).

Outros ainda poderiam dizer: "ah, mas é tão gostoso rodopiar, pular, cair no Espírito. Faz a gente se sentir bem. Se fazemos para Deus, e nos sentimos bem, então é válido".

Nesse caso, a pessoa está simplesmente tentando validar algo que não está na Bíblia a partir de sua própria experiência subjetiva. É a velha lógica do " em busca do que funciona" Mas as Escrituras nos autorizam a fazer isso? De modo algum! O coração do homem é enganoso (Jr 17.9), por isso jamais devemos considerar algo válido apenas porque nos parece bom. Corremos risco de cair no mesmo erro do povo de Israel na época dos juízes, em que cada uma "fazia o que era reto a seus próprios olhos" (Jz 21.25). E esses moveres que acontecem por aí podem até parecer bons para aqueles que estão envolvidos, mas causam um escândalo (novamente digo: justificado) diante dos ímpios e entre os próprios cristãos. Também devemos levar em conta que atribuir ao Espírito Santo algo que é meramente humano e emocional, é , de certo modo, ofender o Espírito Santo e tomar o santo nome de Deus em vão.

Alguns ainda levantarão a seguinte objeção: "ah, você fala assim porque nunca teve essa experiência". Mas eu tive! Isso mesmo! Eu mesmo já entrei no reteté! Pulei descontroladamente, "dancei" com um irmão, gritei. Hoje percebo, a luz dos argumentos bíblicos apresentados neste texto, que foi apenas emocionalismo. Hoje sei que aquilo não era a manifestação do Espírito de Deus. Eu estava alegre com Deus (e não há nada de errado nisto!), mas devido ao ambiente altamente emocionalista no qual eu estava, e aceitando o sugestionamento, agí daquela maneira.
Alguém que conhece História da Igreja pode argumentar: Mas em certos avivamentos,nos séculos XVIII e XIX (no seio de igrejas fiéis à ortodoxia bíblica), como durante as pregações de Wesley, Whitefield e Edwards,ocorriam essas manifestações.Então,elas tem base na história da Igreja,certo? Errado.Algumas dessas manifestações ocorreram de fato nesses avivamentos.Mas tinham um sentido completamente diferente das atuais.Pessoas caiam e choravam,mas não como um suposto resultado de "experiência do crente com Deus".Essas pessoas eram ímpias,que ao ouvirem a mensagem pregada com poder,de tanto que sentiam a convicção de que eram pecadoras más e miseráveis diante de um Deus santo e justo,tinham como primeira reação o desespero.Por isso caiam no chão e choravam.Bons tempos aqueles,nos quais a santidade de Deus era pregada! Geralmente,essas pessoas acabavam se convertendo.Vendo que eram miseráveis pecadoras,humilhavam-se diante do Santíssimo Deus,reconhecendo o quanto eram indignas,e, se tornavam dispostas a viver uma nova vida com Cristo.Muitas almas foram salvas assim.

Mas, e os quakers e os shakers, ele também agiam de forma aparentemente irracional, e isso enquanto adoravam a Deus, e não apenas nos sermões evangelísticos! De fato, isso ocorria. A própria origem dos dois apelidos dados a esses grupos nos indicam isso. Mas, por mais que eles tenham contribuído com a fé e a moral cristã em diversos aspectos (George Fox, fundador dos quakers, levou muita gente a buscar uma comunhão pessoal com Deus, e seus filhos espirituais, como John Whoolman, lutaram, por exemplo, pela abolição da escravidão nos EUA), esses grupos cometeram sérios ataques contra a ortodoxia bíblica. Os quakers (cujo nome oficial era "Sociedade dos Amigos"), por exemplo, negaram os dois sacramentos da Igreja protestante (batismo e eucaristia) e deixaram de praticá-los. Além disso, em suas primeiras declarações de fé (justamente do período no qual eles mais costumavam a praticar estranhas manifestações nos cultos), praticamente afirmavam que aquilo que o Espírito lhes revelava nos cultos estava quase que em pé de igualdade com a Bíblia! Sem falar que desprezavam a ordem no culto, ao dizer que não deveria haver o mínimo resquício de liturgia. Sem querer julgar esses irmãos em Cristo, apenas mostro o quanto eles também eram falhos. E por mais que esses grupos tenham praticado tais supostos moveres do Espírito, eles só surgiram no século XVII. E quatrocentos anos são muito pouco perto da história bimilenar do Cristianismo. Por fim, mesmo que tais práticas fossem vistas mais frequentemente na História da Igreja, em última análise, a Bíblia é nossa única regra de fé e prática, e como já foi amplamente demonstrado nesse artigo, as Escrituras não dão base a elas.

Ainda falando de História da Igreja, o próprio missionário Gunnar Vingren, co-fundador das Assembleias de Deus no Brasil, classificou como "baixo espiritismo" algumas manifestações que presenciou em igrejas evangélicas e que muito se assemelham com o "reteté" tão comum em nossos dias. Lewi Pethrus, líder pentecostal na Suécia, e amigo do missionário Daniel Berg (o outro co-fundador das ADs) registra no livro "O Espírito sopra onde quer", o seu ceticismo em relação ao "cair no Espírito" e outras práticas semelhantes. Até mesmo os pioneiros do Pentecostalismo se opunham à essas práticas!

Portanto, busquemos a legítima manifestação dos dons espirituais sancionados pela Bíblia, um culto sublime, belo e reverente, a edificação do povo de Deus e a salvação das almas. A glória de Deus, o bem de Sua Igreja e a salvação dos pobres pecadores devem ser nossos objetivos, e não o mero emocionalismo e diversão gospel.