terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

Alguns dos livros teológicos que você precisa ter em tua biblioteca

Graça e paz! Aqui elenco ALGUNS livros cristãos que você deveria ter em tua biblioteca. Não se trata de uma lista completa, exaustiva, mas reflete minha experiência. Nota-se que são livros escritos por autores de variadas tradições cristãs, por isso alguns trechos, tratando de assuntos secundários ou de certas abordagens, com certeza vão contrariar aquilo que você pensa, caso você leia todos eles.

História da Igreja e da Teologia

"Uma breve história das doutrinas cristãs",de Justo L. González.
"História do pensamento cristão", de Paul Tillich.
"Fundamentos da teologia histórica", de Alderi Souza de Matos.
"Teologia dos reformadores", de Timothy George.
"Depois de Jesus - O Triunfo do Cristianismo”. Editora Reader’s Digest.
"Igreja Cristã" (coleção "Grandes civilizações do passado"). Editora Folio.
“O calvinismo na prática”, de Org Peter Liliback.
“Documentos da Igreja Cristã”, compilados por Henry Bettenson. Editora ASTE.

Teologia sistemática

"Teologia sistemática, histórica e filosófica", de Allister McGrath.


Bíblias de Estudo

"Bíblia de Estudo de Genebra". Editora Cultura Cristã.
"Bíblia de Estudo da Reforma". Sociedade Bíblica do Brasil.
"A Bíblia Anotada", notas de Charles C. Ryrie.

Espiritualidade/vida cristã

"Celebração da disciplina", de Richard Foster.
"Rios de água viva", de Richard Foster.
"Celebrando as 12 disciplinas espirituais", compilado por Richard Foster.
"Clássicos devocionais", compilados por Richard Foster e James Bryan Smith.
"Tratado sobre o amor de Deus", de Bernardo de Claraval.
"Decepcionado com Deus", de Philip Yancey.
"Oração", de Philip Yancey.
"O Deus (in)visível", de Philip Yancey.
"Por que Deus fica em silêncio", de James Long.
“O regresso do filho pródigo”, de Henri Nouwen.
“Discipulado”, de Dietrich Bonhoeffer.
“Estudos no Sermão do Monte”, de D. Martyn Lloyd-Jones.
“Meditar como cristãos”, de Hans Urs von Balthasar.
“Imitação de Cristo”, de Thomas de Kempis.

Apologética
.
"Não tenho fé suficiente para ser ateu", de Norman Geisler e Frank Turek
"Razão, ciência e fé", de J.D. Thomas.
"Você pode explicar a sua fé?", de Paul E. Little.
"Cristo entre outros deuses", de Erwin E. Lutzer.
"O cristão e a universidade", de Valmir Nascimento.
"Evidência que exige um veredito-vl.2". de Josh McDowell.
“Manual de respostas bíblicas”, de Paulo Sérgio Batista.

Patrística
"Redescobrindo os pais da Igreja", de Michael A.G. Haykin.
"Os pais da Igreja", de Hans von Campenhausen.
Coleção "Patrística", da Ed. Paulus, especialmente os volumes:
                  1."Padres Apostólicos".
                  12. (textos de Agostinho sobre a graça).
                  14. (textos de Basílio de Cesareia). 
                  17."Doutrina Cristã", de Agostinho.
                  25. (textos de Agostinho).
                  33."Demonstração da pregação apostólica",de Irineu de Lião.
                 
                 
"Confissões", de Agostinho.
"Sermões", de Leão Magno.
"Autobiografia", de Gregório de Nazianzo.

Cristologia
"2000 Anos desde Belém".
Trilogia "Jesus de Nazaré”, de Joseph Ratzinger.
“A grande batalha escatológica”, de Leandro Lima.

Soteriologia
"Os batistas e a doutrina da eleição", de Robert B. Selph.

Sociologia
“Nem anjos nem demônios”, coord. Alberto Antoniazzi. Editora Vozes.

Biografias/testemunhos

"Atrevi-me a chamar-lhe Pai", de Bilquis Sheikh
"Enviado por Deus", de Daniel Berg
"A montanha dos sete patamares", de Thomas Merton
"Um mestre no ofício: Tomás de Aquino", de Carlos Arthur Ribeiro do Nascimento

Dicionários

“Novo Dicionário de Teologia”. Editora Hagnos.
“Breve Dicionário de Teologia”, de Justo L. González.
“Dicionário Cultural do Cristianismo”. Editora Loyola.

Comentários bíblicos

“Hebreus”, da série “Comentários Bíblicos”, de João Calvino. Editora Fiel.

Missões/serviço cristão

“Não há portas fechadas”, de Irmão André.

Introdução

“O que sabemos sobre o Cristianismo”, de Carol Watson

Ficção

"O Senhor dos Anéis", de J.R.R. Tolkien.
"O santo sepulcro"(ou “O rei leproso”), de Zofia Kossak.
“O peregrino”, de John Bunyan.


Liturgia/artes/música sacra

“Música e adoração”, de João Wilson Faustini
“Porque fazemos o que fazemos”, de Ray Sutton
“Manual do Culto”. Editora Pendão Real
“Livro de Oração Comum Brasileiro”, conforme utilizado pela Igreja Anglicana do Cone Sul da América
“Sermões de Natal”, de São Bernardo de Claraval
“Harpa Cristã”. Casa Publicadora das Assembleias de Deus
“Hinário para o culto cristão”. Editora JUERP
“Cantai todos os povos”. Editora Pendão Real
“Hinário Episcopal”. Livraria Anglicana
“Hinário Luterano”. Editora Concórdia

Diversos
“João Calvino: Textos escolhidos”, compilado por Eduardo Galasso Faria. Editora Pendão Real.
“O credo dos apóstolos”, de Franklin Ferreira.
“Tá doendo!”, de Caio Fábio.
“A Igreja do final do século XX”, de Francis A. Schaeffer.

“Da liberdade do cristão”, de Martinho Lutero.

sábado, 27 de janeiro de 2018

Sobre imagens e idolatria

"Eu sou o SENHOR teu Deus, que te tirei da terra do Egito, da casa da servidäo;
Não terás outros deuses diante de mim; Não farás para ti imagem de escultura, nem semelhança alguma do que há em cima no céu, nem em baixo na terra, nem nas águas debaixo da terra; Näo te encurvarás a elas, nem as servirás..."(Dt 5.6-9)

Esses versículos são muito conhecidos pelos protestantes brasileiros. Eles claramente proíbem a idolatria. Mas...o que é realmente idolatria? Possuir um vitral com cenas bíblicas? A resposta é um sonoro NÃO! Vamos analisar o que esses e outros versículos da Bíblia dizem sobre imagens e idolatria.

Osíris, Anúbis e Hórus
Israel estava saindo do Egito. Do meio de um povo que tributava culto a imagens, que representavam seus (falsos) deuses, como Osíris, Rá, Amon, Isis, Anúbis, Seth e outros. A seguinte afirmação do apóstolo Paulo nos dá a certeza de que o culto aos falsos deuses equivale ao culto à demônios:

" Antes digo que as coisas que os gentios sacrificam, as sacrificam aos demónios, e näo a Deus. "(I Co 10.20)"

O apóstolo se refere, nessa passagem à outros falsos deuses, como eram aqueles cultuados pelos gregos, como Zeus, Hera, Hades, Ares, etc. Assim, não temos dúvidas de que tributar adoração aos deuses criados por homens é um grande pecado.

No entanto, as Sagradas Escrituras não proíbem todo tipo de imagem. Se assim fosse, logicamente não poderíamos ter fotografias nem bichinhos de pelúcia! Vamos analisar o seguinte versículo:

"Farás também dois querubins de ouro; de ouro batido os farás, nas duas extremidades do propiciatório."(Ex 25.18)"

A Arca da Aliança
DEUS MANDANDO FAZER IMAGENS??? ISSO MESMO!!! Estaria Deus contradizendo sua Palavra? De modo algum! Isso é uma prova de que Dt 5.6-9 não proíbe todo tipo de imagem, e sim imagens de falsos deuses com fim de adoração,e imagens do Deus de Israel. Caso a mandamento da Lei mosaica fosse tomado ao pé da letra, não poderíamos ter fotografias, bichinhos de pelúcia ou bonecas. Deus também mandou que imagens de querubins fossem feitas no tabernáculo (Ex 26.1).Também a outra habitação de Deus, o Templo de Salomão (Cujo projeto Ele próprio deu a seu servo Davi-1 Cr 28.11-12),tinha imagens de seres vivos(II Cr 4.15).Outra passagem que Deus ordena a fabricação de uma imagem após um castigo dado a Israel no deserto:

" E disse o SENHOR a Moisés: Faze-te uma serpente ardente, e põe-na sobre uma haste; e será que viverá todo o que, tendo sido picado, olhar para ela.  E Moisés fez uma serpente de metal, e pô-la sobre uma haste; e sucedia que, picando alguma serpente a alguém, quando esse olhava para a serpente de metal, vivia"(Nm 21.8-9)

Mais uma vez Deus ordena a fabricação de uma imagem! No entanto, vale lembrar que, como vimos no começo, a ADORAÇÃO de imagens é terminantemente proibida pelo Senhor. Quando o povo começou a adorar a serpente, o sábio rei Ezequias mandou que ela fosse destruída (II Rs 18.4).As imagens podiam ser usadas no culto a Deus, como decoração ou estímulo ao pensamento, mas não como finalidade em si próprias. Não como objetos de culto e adoração.

Já vimos que as imagens em si próprias não são boas nem más. Isso vai depender do jeito que as usamos (ou não usamos).

E o que o Novo Testamento nos diz a respeito de imagens no culto? NADA. Isso para mim significa que o Espírito Santo não quis dar direção específica em relação a isso, e deixou a critério da igreja o uso (sem idolatria!) ou não de imagens no culto à Deus. A idolatria é terminantemente proibida nos escritos dos apóstolos, mas nós já vimos que nem toda imagem é um ídolo.

O Bom Pastor, pintura do século III
E o que nos diz a história da Igreja? Desde os primórdios os cristãos usavam imagens. A primeira foi o peixe, pois os primeiros discípulos eram pescadores, e a palavra peixe em grego tem as iniciais(também em grego) de Jesus Cristo Filho de Deus Salvador. Outras imagens sacras comuns, a partir do século II, eram a da Ceia do Senhor e do Bom Pastor (Jo 10.11 - Cristo como um jovem ainda sem barba cuidando de ovelhas).Isso tem muita coisa à dizer aos evangélicos do Brasil, tão avessos à imagens: Segundo boa parte deles, a igreja primitiva se "corrompeu e se acabou se transformando na igreja católica romana a partir do édito de Constantino em 313".Pois bem, os cristãos já usavam imagens antes disso! Depois, surgiu a representação de Cristo triunfante (Pantocrator). Mas havia quem se opusesse, como Epifânio de Salamina, um dos Pais da Igreja, que certa vez rasgou um véu com uma imagem sacra em um templo. No início do século IV, um pequeno sínodo em Elvira (Espanha) condenou as imagens, mas a maioria das igrejas não fez caso disso. Vários Pais da Igreja, como Ambrósio, Agostinho, Basílio Magno, João Crisóstomo e Gregório de Nissa apoiaram o uso de imagens.

Uma imensa multiplicação das imagens deu-se na Idade Média (a partir do século V).As imagens possuíam também caráter didático, pois a maioria da população era analfabeta, e as Bíblias eram escritas às duras penas pelos monges.

No século VII, o islamismo condenou de forma ferrenha o uso de imagens sacras nas mesquitas (templos). Para expressar a beleza do sagrado, investiram nas qualidades arquitetônicas, caligráficas e motivos decorativos não pictóricos.

Décadas depois disso, no Império Bizantino, estourou a questão iconoclasta. Parte da Igreja pregava que as imagens deveriam ser usadas, enquanto outra parte defendia que fossem destruídas. Depois de intercalarem vitórias e derrotas, o II Concílio de Niceia (787) se posicionou a favor do uso de imagens.

João Damasceno
O principal apologista do uso das imagens nessa época foi João Damasceno (c.675-749). Considerado por muitos como o último Pai da Igreja, o religioso sírio se utilizou principalmente do argumento de que, fazendo-se o Filho de Deus imagem (em carne - Jo 1.14) abriu-se a possibilidade do mesmo Filho de Deus fosse representado em imagens. O mesmo Jesus Cristo é a “imagem” (do grego “eikon”, de onde vem a palavra “ícone”) do Deus invisível (Cl 1.15). Assim sendo, anula-se a objeção de Dt 4.12, que faz sentido apenas no contexto do AT, na qual nenhuma das pessoas da Trindade havia se tornado visível. Ainda seguindo a linha desse argumento, podemos ver que as imagens do Filho não são mais proibidas.  O fato do corpo dos fiéis ter sido santificado pela ressurreição de Cristo também contribuiu para a defesa do uso de imagens dos santos mortos (lembra-se que as imagens do AT eram apenas de anjos e animais?).

Iconóstase em igreja ortodoxa
As imagens principais da Igreja Ortodoxas residem nos ícones, imagens pintadas, geralmente em madeira, representando o Cristo Pantocrator, a virgem Maria com o menino Jesus, e os diversos santos. O altar da consagração eucarística é separado do resto do templo por uma parede coberta de ícones, a iconóstase. Os fiéis se ajoelham e beijam as imagens. A princípio, os ícones tinham o mesmo estilo, mas em alguns lugares como a Rússia (baluarte da Ortodoxia), devido a mudanças culturais (como a ocidentalização pelo czar Pedro, o Grande), adotou-se um estilo mais realista e humanista, baseado nos ideais artísticos ocidentais da Idade Moderna. Já as imagens tridimensionais são rejeitadas pelos ortodoxos. Com o movimento artístico conhecido como “Gótico”, no séc. XII surge um tipo de imagem que seria utilizado largamente nas catedrais: o vitral. Novas ideias e práticas arquitetônicas permitiram maior leveza nos templos, fazendo com que grandes peças de vidro fossem sustentadas.

No fim dessa época (séc .XV),houve um momento de trevas espirituais na Cristandade. Muitos cristãos passaram a confiar em imagens (isso sim é idolatria! Sl 115.4-8) Os bispos de Roma, outrora fiéis pastores do rebanho de Cristo tornaram-se políticos mundanos, que arrancavam a pele e carne de suas ovelhas. Todos aqueles que se levantavam contra aquele sistema eram calados. Mas houve um homem que não foi calado... o seu nome era Martinho Lutero.

Surge a Reforma protestante. Algumas verdades que haviam sido cobertas com um negro véu ressurgem: A justificação pela fé (Rm 5.1; Ef 2.8; Hc 2.4), a suficiência das Escrituras, o sacerdócio universal dos cristãos (I Pe 2.9),etc..Mas qual era a opinião dos reformadores em relação a imagens?

Lutero não condenou as imagens em si. Em alguns de seus escritos, ele até mesmo defende o uso de imagens como o crucifixo. Nas igrejas que aderiram o ramo luterano da Reforma, a maioria das imagens continuou. Basta consultar "lutheran church" ou termos parecidos no Google. Mesmo no Brasil, os luteranos se utilizam de imagens. Eu posso comprovar isso, pois já fui na paróquia luterana do Centro de São Paulo(IECLB). Lá existe uma imagem de Cristo crucificado e outra, se eu não me engano de Jesus com os dois discípulos em Emaús (Lc 21.13-35).

Já Zuinglio era radicalmente contra as imagens. Mandou que as paredes de sua igreja fossem pintadas de branco. Calvino também foi opositor do uso de imagens. Surgiu até mesmo um ditado no meio reformado: "o culto reformada consiste de quatro paredes caiadas e um sermão". Já os anglicanos se dividiram entre os que apoiavam e os que condenavam as imagens. Algumas delas continuam com as imagens em seus templos até hoje

Com o movimento ritualista do século XIX, várias congregações protestantes reintroduziram a arte sacra. Atualmente, em vários lugares (principalmente Europa e E.U.A.) as mais variadas igrejas(anglicanas, luteranas, presbiterianas, reformadas, metodistas, batistas, pentecostais),possuem imagens. Podem ser vitrais, pinturas, ou mesmo esculturas.

Houve até mesmo o caso de existir uma Assembleia de Deus (cujos membros são opositores ferrenhos de imagens) que tinha uma cena bíblica registrada na parede (Moisés e o povo atravessando o Mar Vermelho - Ex 14).E isso em pleno Brasil! Depois o templo foi vendido para outra denominação, e não sei se a pintura ainda está lá.

Também devemos lembrar que imagens possuem uma forte comunicação simbólica na espécie humana.  Vejamos o que nos diz Lutero no seu escrito "Contra os profetas celestiais":

                 “Quando eu escuto falar de Cristo, uma imagem de um homem pendurado            numa cruz  toma meu coração, assim como o reflexo de meu rosto aparece                       naturalmente na água quando eu olho nela. Se não é pecado, mas sim bom em ter uma imagem de Cristo  em meu coração, porque deveria ser um pecado de tê-lo em meus olhos?”

Não vejo o problema com imagens na igreja, desde que sejam usadas como obras de arte e como estímulo ao pensamento (nenhuma forma de culto ou veneração deve ser prestado a elas). Creio que Deus é digno do melhor, e que por isso é uma ótima ideia o adorarmos utilizando as artes (pintura, arquitetura, literatura, artes decorativas, música, etc)    Também, como eu tenho dito em outros artigos, o homem é um ser simbólico, que através das artes expressa e entende os afetos da alma. Porque os afetos religiosos dos cristãos não poderiam ser assim representados? 

Por fim, devemos lembrar que não são apenas as imagens que podem provocar a idolatria nos corações. Uma pessoa amada pode ser um ídolo. Uma ideia preconcebida pode ser um ídolo. Uma grande personagem histórica ou política pode ser um ídolo. Uma prática pecaminosa pode ser um ídolo. Um líder de uma igreja pode ser um ídolo. Cabe a nós consagrarmos-nos à glória de Deus, e jamais conceder a glória dEle a outros seres ou objetos.







sábado, 13 de janeiro de 2018

Uma defesa das liturgias clássicas

No meio evangélico brasileiro, há uma grande confusão em relação a liturgia. Muitos veem a liturgia tradicional de certas igrejas como um "resquício de romanismo", "trapo imundo do papado". Devido a questões sociológicas datadas do tempo do II Império Brasileiro, quando os protestantes eram desprezados e amaldiçoados, a liturgia protestante no Brasil tende a ser extremamente simples, e costuma-se condenar algumas práticas tradicionais em outros países, como o uso da cruz, de orações recitadas, e de togas por parte dos ministros. Mas eu, pessoalmente, creio que na liturgia cristã tradicional temos uma grande riqueza teológica e espiritual que muito se adequa a um grupo que pretende render culto àquele que é o Soberano Criador do céu e da terra, ao Rei exaltado nas alturas, ao Senhor de todas as coisas (Hc 2.20). Não convém oferecer a tal Ser a mesma coisa que ofereceríamos a um "Zé ninguém".

Em algumas denominações cristãs do Brasil atual, temos experimentado um retorno a essas raízes litúrgicas. Vários grupos tem descoberto a beleza das práticas tradicionais, e, em alguns deles, unido a estas a teologia bíblica e os carismas pentecostais. É o chamado "movimento de convergência".
A seguir, analisarei alguns pontos dessa herança litúrgica que muitos têm redescoberto.

O CALENDÁRIO LITÚRGICO E O LECIONÁRIO

Do mesmo modo que existe um calendário civil em cada sociedade (no Brasil, por exemplo, temos os dias da Independência, da bandeira, da proclamação da República, da consciência negra, etc.), existe também, na tradição cristã, o calendário litúrgico. Tal calendário, formado ao longo dos séculos, nos lembra dos grandes feitos de Deus na obra da Redenção, especialmente através da vida e ministério de Jesus Cristo. O calendário litúrgico se inicial com o Advento, período de preparação e expectativa para o Natal, quando se celebra a encarnação de Cristo, e termina com a festa de Cristo rei, onde nos l
embramos de que, apesar de tudo, nosso Salvador é rei grande sobre a terra. Entre as outras datas comemoradas no calendário litúrgico, temos também o Domingo de Ramos (que relembra a entrada triunfal de Cristo em Jerusalém),a Sexta-feira Santa (que relembra a morte do Senhor) a Páscoa (Sua ressurreição), o Domingo de Pentecostes (que relembra a vinda do Espírito Santo sobre a sua Igreja). O calendário litúrgico nos proporciona meditar sobre a história da salvação e aplicá-la em nossa vida. Dessa maneira ao longo do ano o tema das leituras bíblicas, dos hinos, dos sermões e do simbolismo abrange uma vasta gama de assuntos, o que também desfaz a mesmice dos cultos de muitas das igrejas atuais (onde se fala só de bênçãos, ou  só prosperidade, ou só de costumes,etc.). Com o calendário litúrgico também podemos compreender a doutrina bíblica “no geral”.

O lecionário é um sistema de leituras bíblicas ao longo do ano litúrgico que permite, em seu decorrer, que a cabo de alguns anos a Bíblia inteira tenha sido lida publicamente na Igreja! Geralmente, é utilizado o padrão de três ou quatro leituras por culto.

A CRUZ

A cruz é publicamente relembrada como o símbolo máximo do Cristianismo. Se outrora simbolizava maldição (Dt 21.23) , por ser utilizada como forma de condenação aos piores criminosos das sociedades antigas, para nós passou a ser símbolo de glória, redenção e vitória (Gl 6.14; I Co 1.18). Ela é a expressão máxima do amor de Deus pela humanidade pecadora. Ora, se a Bíblia tantas vezes fala da cruz como símbolo de redenção, e se os hinos que cantamos há gerações também o fazem ("Quero estar ao pé da cruz"; "Foi na cruz onde um dia eu vi", "eu amo a mensagem da cruz",etc.) porque não podemos usar o símbolo em nossos templos, vestimentas, como pingentes, ou em objetos?

Alguns costumam dizer: "Na cruz, Jesus morreu. Por tanto, não devemos utilizar esse símbolo. Pois, se o seu filho fosse assassinado a facadas, você usaria uma faca como símbolo?". Tal "objeção" não tem sentido. Devemos lembrar que a morte de Cristo não foi um acontecimento trágico, um mero assassinato, um lamentável erro judicial que só produziu dor. A morte de Cristo é a única fonte de redenção para os homens. Cristo não foi meramente um "coitado", nem mesmo um mártir, mas sim algo que somente Ele é: o Salvador.


Outros dizem que usar a cruz como símbolo seria idolatria. Mas o que é idolatria? Tributar o culto devido somente a Deus à qualquer ser ou objeto que não seja Ele. Desse modo, se eu cometerei ou não idolatria ao utilizar um símbolo, isso dependerá da disposição do meu coração, mais do que ao objeto que utilizo em si. Dessa maneira, se eu utilizo a cruz apenas como um símbolo e memorial, eu não cairei no erro da idolatria.

Devemos também nos lembrar de que a cruz é usada como símbolo cristão desde tempos remotos. Bem antes da "conversão" de Constantino, o teólogo Tertuliano de Cartago registra que os cristãos eram chamados de "devotos da cruz". Em sua época (séc. II-III) o sinal-da-cruz também já existia (o que é uma refutação às "Testemunhas de Jeová" e outros grupos, que afirmam que apenas com a "paganização" de Constantino a cruz com duas traves passou a ser utilizada como símbolo cristão).

E esta birra contra a cruz, que muitos evangélicos possuem, é um fenômeno historicamente e geograficamente limitado. Em outros países, é muito comum que até mesmo igrejas batistas e pentecostais utilizem a cruz como símbolo, seja na torre da igreja, ou na parede atrás do púlpito. Uma rápida pesquisa no Google pode mostrar isso.
Por fim, manifesto minha indignação: porque um grande número de evangélicos são contra o uso da cruz, que é tradicionalmente um símbolo cristão, mas utilizam a estrela de Davi e o menorá (candelabro do templo), que são sombras do Antigo Testamento?

OUTROS SÍMBOLOS

O homem é um ser simbólico. Ele se utiliza de símbolos para expressar e entender a sua vida, seus afetos, suas crenças e seus pensamentos. Todas as sociedades contam com uma série de símbolos, que são comprovadamente úteis ao transmitir uma mensagem. O aperto de mão, a festa de aniversário, as alianças de casamento, o vestido de noiva, a bandeira nacional, o minuto de silêncio, as medalhas e muitos outros símbolos permeiam a cultura ocidental (as demais culturas possuem seus próprios símbolos). Dessa maneira, não há problema algum (muito pelo contrário) em se utilizar símbolos na liturgia e nos templos, desde que tenham uma séria mensagem a transmitir e não se tornem um fim neles próprios. Além da cruz, vários outros símbolos podem ser utilizados: o peixe (usados pelos primeiros cristãos), as palmas no Domingo de Ramos,etc. Algumas tradições mais litúrgicas utilizam-se também de velas, incenso, cinzas, etc.

Um simbolismo que deve ser analisado a parte é o das vestimentas clericais. Sabemos que em nossa sociedade, certas profissões se utilizam de vestuário particular a fim de expressar sua função. Assim acontece com os policiais, soldados, médicos, guardas cerimoniais, bombeiros, etc. Essas vestimentas tem a vantagem de fazer aqueles que as utilizam "desaparecer" dentro delas. Não há mais espaço para se dizer: "olhem só, como fulano está chique!", ou "a marca da roupa do soldado X e melhor do que a do soldado Y". Isso não seria proveitoso em nossas igrejas, nas quais muitos pastores disputam quem está com o melhor terno ou camisa? Vale lembrar também que os sacerdotes do AT utilizavam vestimentas distintivas. As peças e cores a ser utilizadas também devem transmitir uma mensagem. Acho curioso que os mesmos irmãos que apoiam o uso de togas para os coristas da igreja e vestes brancas para os batizandos critiquem as vestes especiais para os pastores!

A ORAÇÃO LITÚRGICA

O tipo de oração que utilizamos no culto público deve ter algumas diferenças em relação a oração particular ensinada por Jesus. Como o culto público é comunitário, é o serviço (leitourgia) do povo de Deus, as orações devem seguir tais características. As orações litúrgicas estavam presentes no culto do povo de Deus no AT (como o "Shemah Israel"- Dt 6.4- e a Benção Aaraônica - Nm 6.22-27) e desde muito cedo foi utilizada na liturgia cristã. No documento conhecido como "Didaque", datado dos séculos I-II vemos que existe a prescrição de se orar o "Pai Nosso" três vezes ao dia, além de orações próprias para a consagração dos elementos da ceia do Senhor. Por volta do ano 215, Hipólito de Roma registra como "Tradição apostólica" certas orações eucarísticas recitadas (se as estudarmos bem, veremos que não se tratam de invenções ex nihilo, mas de um costume baseado nas orações que os judeus faziam a mesa).

Alguns dizem que as orações recitadas são vãs repetições, o que seria condenado por Cristo em Mt 6.7 . Mas, na verdade, o que determina uma oração ser uma vã repetição (ou, conforme outra tradução do texto, "palavreado inútil") é, primeiramente, uma falta de disposição do coração e o fato de se estar apenas repetindo sem pensar (Is 29.13, Mt 15.8). A partir do momento que eu "degusto" as palavras e as profiro com todo o coração, sem excessos, me unindo à fé da Igreja, elas são uma oração que Deus aceita. Se não fosse assim, teríamos que parar de entoar os hinos de nossos hinários, muitos dos quais são orações cantadas, que repetimos há séculos! Lembremos também que o próprio Jesus, ao prescrever o "Pai Nosso", instrui-nos que "digamos"(Lc 11.1-4) as mesmas palavras, e não que apenas nos inspiremos nelas (como alguns teólogos costumam dizer).
Também devemos ter em conta que no culto público, estamos oferecendo um "tributo" oficial ao Rei do Universo, diante de sua corte angélica (I Co 11.10). As orações recitadas são mais apropriadas nesse contexto pois, além de sua maior beleza e harmonia estética, possuem bases teológicas firmes, o que impede de ouvirmos de quem conduz a oração pública algumas coisas como: "Passa a vassoura de fogo aqui, Senhor", "Eu repreendo o Zé Pelintra" além de uma bagunça entre as pessoas da Trindade que vemos em nossos cultos.

As orações recitadas também permitem que todos tomem parte no culto divino, fortalecendo seu aspecto coletivo, que de outra maneira ficaria um tanto prejudicado.
Por fim, nas orações recitadas, todos podem participar de forma adequada, todos sabem onde irão começar e onde irão terminar (um forte princípio de ordem), e a congregação se une à Igreja de todos os tempos e lugares que pronunciaram as mesmas palavras (especialmente quando se trata do Pai Nosso - a oração que o próprio Jesus nos ensinou - e os credos da Igreja - que transmitem as doutrinas básicas de nossa fé).

Sobre a oração litúrgica, podemos falar ainda mais. Sistemas como breviários e a Liturgia das Horas fazem-nos esquecer dos cuidados terrestres e entrar no “ritmo da eternidade”, associando-nos aos cristãos de todas as épocas e lugares que entraram nesse exercício sagrado., além de boa parte de seu conteúdo ser composta de orações bíblicas, como os salmos. Por vezes, quando nos encontramos deprimidos e fracos, as orações litúrgicas recitadas são uma fonte de consolo e inspiração. Sendo aprovadas pela fé da Igreja e pelo uso do tempo, tem se mostrado também como modelo para outros tipos de orações que podemos (e devemos) praticar em nossas vidas diárias.

OS HINOS

É surpreendentemente estúpido como várias igrejas jogaram no lixo toda uma tradição de excelentes hinos e cânticos, que transformaram e alentaram vidas ao longo dos séculos, para usar apenas canções de qualidade duvidosa, que muitas vezes servem apenas para alimentar o ego das pessoas. Não estou dizendo que TODOS os hinos antigos eram bons, muito menos que TODOS os hinos modernos são ruins. Muitos hinos foram escritos e compostos no passado, mas apenas os bons chegaram a nós. Há excelentes hinos recentes de vários estilos, com uma mensagem de adoração a Deus e melodias que nos tocam. Mas tudo deve ser usado com um saudável equilíbrio. Há espaço tanto para os hinos tradicionais, quanto para os de (bons) cantores cristãos de nossos dias.

Entre os hinos tradicionais, temos o canto gregoriano, do qual falo em outro artigo. Esse tipo de música tem a vantagem de conduzir-nos a um ambiente mais espiritual, pois é totalmente diferente da música secular, e basta começarmos a ouvir suas notas para o associarmos à música sacra. Várias poesias medievais foram escritas para o canto gregoriano, muitas das quais foram, posteriormente, traduzidas para o português, como “Ó vem Emanuel”

As obras sacras dos grandes mestres estão à altura do culto que devemos prestar àquele que é o Rei do Universo. Haendel, Bach, Purcell, Beethoven, Mozart, Vivaldi, Palestrina, Tchaikovsky e muitos outros compuseram excelentes peças, que deveriam ser mais ouvidas pelos evangélicos brasileiros, e cantadas pelos corais de nossas igrejas.

Outro estilo de boa música sacra tradicional são os hinos dos hinários das igrejas evangélicas, como a Harpa Cristã, o Salmos e Hinos, o Hinário Evangélico e o Hinário Luterano. Nossos pais e avós cantaram com todo o fervor esses hinos, e foram muito edificados por eles. Algumas pessoas costumam se opor ao uso desses hinos pois eles possuem algumas palavras e frases difíceis de entender. Ora, isso é apelar para a lei do menor esforço! Justamente por sua harmonia e sofisticação estética, esses hinos são adequados para o culto divino, e nos levam a aumentar nosso vocabulário pesquisando o significado de certos termos.

AS ARTES VISUAIS

Retomando os princípios de que Deus é digno do melhor e de que o homem é um ser que se comunica por símbolos, percebemos que devemos usar a beleza estética para a glória de Deus em nossas liturgias. Assim sendo, as chamadas artes visuais, desde que não tendam para à idolatria, deveriam ser utilizadas quando há chances para tal.
Alguns apontam o segundo mandamento como proibição para o uso de arte pictórica (vitrais, ícones, relevos,etc.) na Igreja. Mas, se analisarmos bem todo o contexto dos Dez Mandamentos, além de outras passagens da Lei nas quais o próprio Deus manda que imagens de seres fossem utilizadas na liturgia de Seu povo, vemos que a proibição não abarca quaisquer tipos de imagens sacras, mas apenas as de falsos deuses e aquelas às quais se tributa algum culto ou reverência supersticiosa. Portanto, podemos ter vitrais, ícones, pinturas mosaicos,etc. em nossas igrejas como decoração, memorial e estímulo aos sentidos, mas não para tributarmos à estas imagens quaisquer formas de culto.
As imagens não passaram a ser utilizadas no Cristianismo com a "contaminação constantiniana", conforme gostam de afirmar alguns evangélicos desinformados, mas são bem mais antigas. Os Pais da Igreja conheceram e aprovaram o uso de imagens sacras com os fins que citei anteriormente. Se, em algumas Igrejas oficiais, o uso de imagens acabou descambando para a superstição e idolatria em muitos casos, isso se deve à ignorância das populações cristãs medievais, e não ao uso da arte em si.

CONCLUSÃO

Uma objeção à liturgias mais formais, seria que elas, supostamente, barrariam a liberdade do Espírito Santo. Tal visão é baseada, em parte, num certo egoísmo em relação á obra do Espírito Santo. Muitos irmãos caem naquilo que Spurgeon constatou: as pessoas estão tão interessadas no que o Espírito Santo as fala, que esquecem o que o Espírito Santo falou à outas. Ora, não pode o Espírito Santo ter iluminado seus pastores, ao longo da história, para que elaborassem as citadas liturgias? Mesmo assim, eu reconheço que o Espírito Santo pode querer fazer algo extraordinário no culto. Nesse caso, o dirigente necessita de discernimento espiritual para saber "abrir uma exceção". Não, ao propor o uso de uma liturgia mais refinada, não quero proibir os crentes de exercerem os dons espirituais ou de expressarem júbilo (com a devida moderação) no culto.


Por fim, eu gostaria de refutar uma última objeção às liturgias clássicas. Muitos evangélicos dizem que são um "resquício de romanismo". Ao meu ver tais irmãos, ao jogarem fora a água do banho, jogam o bebê junto. Muita coisa boa nos foi legada pela Igreja de Roma. Foi de lá que nós saímos, e de onde aprendemos as doutrinas da Trindade, das duas naturezas de Cristo, o cânon do Novo Testamento e uma série de práticas e moralidade. Áquilo que herdamos de bom da Igreja Católica Romana, devemos chamar de "catolicidade", a herança comum do Cristianismo, baseada na verdadeira fé apostólica. Se a Igreja de Roma distorceu alguns pontos doutrinários, litúrgicos e práticos da Bíblia, somente à isso devemos tratar por "romanismo". Lutero não queria reconstruir a Igreja do zero, mais consertar aquilo que julgava, à luz da Bíblia, estar errado. Por isso, ao sistematizar a liturgia de sua igreja, preservou costumes como as vestimentas, orações recitadas, credos e o calendário litúrgico, pois tais coisas não são proibidas nas Escrituras, e mostraram-se proveitosas ao longo dos séculos. Em relação a outras coisas, como recitar a liturgia numa língua que o povo não entendia, tributar culto ás imagens e invocar santos mortos, Lutero corretamente abriu mão dessas práticas. 

quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

As riquezas da História da Igreja: Parte 4

No século XIII,a Igreja enfrentou uma série de problemas internos e externos. Nesse período, surgiram as ordens de frades mendicantes. Diferente dos monges, que viviam enclausurados, os frades trabalhavam no meio do povo. Duas ordens se destacam no período: os franciscanos, fundados pelo já citado Francisco de Assis, que pregava o retorno à simplicidade evangélica, o serviço ao próximo e o cuidado com toda a criação divina; e os dominicanos, fundados por Domingos de Gusmão, focados na pregação e na apologética, combatendo a perversa heresia cátara (ou albigense), um movimento de tendência gnóstica que atraiu grandes massas na França, Península Ibérica e outras partes da Europa.
 Os reformadores pregaram (corretamente) que os presbíteros e bispos poderiam contrair matrimônio. O celibato era visto como fonte de imoralidades (que infelizmente, algumas vezes, aconteciam). No entanto, no meio luterano, alguns mosteiros permaneceram, com seus monges se convertendo a doutrina protestante. Entre os anglicanos, com o confisco das terras monásticas por parte do rei Henrique VIII, a vida monástica desapareceu. Mas com o movimento de Oxford, no século XIX, ordens religiosas de várias tendências ressurgiram no seio da Igreja Anglicana. Hoje em dia, várias ordens, de carisma franciscano, beneditino, dominicano,etc. são mantidas por anglicanos. Em muitas delas, os duros votos foram reinterpretados, prescrevendo, no lugar do celibato, a fidelidade ao marido/esposa, e no lugar da pobreza absoluta, uma vida simples, sem ostentação e permitindo que seus membros mantenham as atividades seculares, sem necessidade de clausura.
O século XX viu um reavivamento do monasticismo no meio protestante. Temos ordens de origem luterana (como as Irmãs Evangélicas de Maria), presbiteriana, metodista,etc.  Temos também casas de retiro, para cristãos que desejam passar algum tempo em reflexão e oração num ambiente mais “propício”. Muitos irmãos, de diversas igrejas evangélicas, têm descoberto novas sensações e enfoques em tais retiros. A Comunidade de Taizé, fundada pelo pastor reformado Irmão Roger na década de 40, tornou-se conhecida por acolher cristãos de vários grupos, proporcionar ensino espiritual para jovens e produzir belíssimos cânticos.

A espiritualidade monástica tem muito a ensinar para os homens de hoje. A consagração total da vida à Deus, o desprezo às riquezas mundanas e aos excessos supérfluos, a prática da meditação e a oração litúrgica aqui se encaixam.

quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

As riquezas da História da Igreja: Parte 3

No período conhecido como Alta Idade Média (séc. VI-X) a Teologia não experimentou grande criatividade. Era baseada principalmente na patrística, e estava ligada aos mosteiros. Apesar de muitos chamarem esse período de “Idade das Trevas”, por um alegado obscurantismo intelectual e teológico, temos o movimento educacional e artístico conhecido como “Renascimento Carolíngio”. Entre os grandes nomes da teologia da época, temos o Venerável Beda (pai da historiografia inglesa), Alcuíno de York, João Escoto Erígena e Isidoro de Sevilha (posteriormente proclamado doutor da igreja).
Na Baixa Idade Média (séc. XI – XV) desenvolve-se o movimento teológico conhecido como “escolasticismo”. Os teólogos escolásticos, como Anselmo de Canterbury, Pedro Abelardo e Tomás de Aquino (o mais conhecido e importante) buscavam organizar a doutrina cristã de forma sistemática, científica e a harmonia entre a fé e a razão. Anselmo cria o argumento ontológico para a existência de Deus. Tomás, baseado no filósofo grego Aristóteles, desenvolve o argumento das “Cinco vias”. Apesar de duramente criticados hoje, sendo acusados de promover debates intelectuais inúteis e totalmente distantes do povo humilde da época, os escolásticos conseguiram mostrar a razoabilidade da fé cristã, e influenciam a Igreja até os nossos dias.
Reagindo a certos extremos nos quais, muitas vezes, os escolásticos caíam, muitos escritores, geralmente monges ou padres, criaram obras de teologia mística, a teologia em que se busca uma comunhão pessoal com Deus e a experiência com Ele. Dentre essas obras, temos o excelente livro “Imitação de Cristo”, a “Nuvem do desconhecimento”, “O espelho das almas simples”,e muitos outros. Entre os grandes teólogos místicos se incluem várias mulheres, como Catarina de Sena, Brígida da Suécia, Juliana de Norwich e Gertrudes de Helfta. Mesmo os teólogos escolásticos, por vezes, eram teólogos místicos.

Nessa época, a Igreja de Cristo passou por uma série de dificuldades, como a ignorância doutrinária e superficialidade espiritual da maioria dos fiéis, excessos em relação aos sacramentos, ênfase exagerada no papel da Virgem bendita e dos santos de Deus, violência em nome da fé e um esquecimento da ênfase paulina na justificação pela fé. Mesmo assim, muitos servos de Deus buscaram a pureza na fé. Além dos grupos citados, temos o movimento franciscano, liderado por  Francisco de Assis um “playboy” que encontrou a Cristo; os “Irmãos de vida comum”, na Alemanha e Países Baixos; o misticismo germânico; e um grupo conhecido como valdenses. Os valdenses eram, dentre os citados, os que mais se opunham à igreja oficial, visto contestarem não apenas a situação moral e espiritual, mas também a situação doutrinária.

segunda-feira, 1 de janeiro de 2018

As riquezas da História da Igreja: Parte 2

Outro grupo de grande envergadura espiritual do período foram os chamados “Pais do Deserto”, os primeiros monges cristãos, que, a princípio se retiravam para lugares ermos a fim de orar e meditar. Pessoas de várias partes iam consultá-los, a fim de receber sábios conselhos espirituais. O primeiro dos Pais do Deserto foi Antão (251 d.C.- 356 d.C.), cuja vida é a nós narrada pelo já citado Atanásio. Outros homens e mulheres, como Pacômio(c.292 d.C.-348 d.C.) e Maria Egípcia (que era prostituta antes de se converter) também estão nesse grupo. Com o tempo, esses eremitas viram que seria mais proveitoso caso passassem a viver em grupos. Basílio de Cesareia foi um dos organizadores desses grupos. A vida monástica tal qual conhecemos teve origem, no Ocidente, com Bento da Núrsia (480-547), que fundou um mosteiro na Itália e escreveu uma regra de obediência para os que quisessem se ajuntar ao seu grupo (a futura ordem beneditina). A partir daí, várias ordens foram surgindo. Os monges faziam voto de pobreza, obediência e castidade. Pode nos parecer muito duro, mas conforme observa Richard Foster em um de seus livros, tais votos são respostas enérgicas às três áreas nas quais somos mais tentados: dinheiro, poder e sexo. Mas se engana quem pensa que os monges apenas oravam e intercediam por tudo e todos, seja em orações particulares, seja em liturgias nos templos (o que, aliás, já era uma grande tarefa). Especialmente na ordem beneditina, havia uma série de trabalhos aos quais os monges se dedicavam, que iam da manutenção do prédio do mosteiro à produção de alimentos e drenagem de pântanos. Graças a estes monges nós possuímos a Bíblia, pois foram eles que fizeram as cópias dos manuscritos bíblicos, e cópias destas cópias. Escreveram também rico material teológico e devocional, baseado nas longas horas de oração, estudo e meditação que tinham nos mosteiros. Nas bibliotecas dos mosteiros eram conservadas também obras herdadas da Antiguidade, sendo os mosteiros, num primeiro período, os centros intelectuais medievais (posteriormente disputariam esse posto com as universidades). Vale lembrar também que os mosteiros acolhiam visitantes e necessitados, e foi ao lado de muitos mosteiros que nasceram os hospitais modernos. Devido a essa grande importância dos mosteiros, o teólogo católico Felipe Aquino chama o citado Bento de “Pai da Europa”.

quarta-feira, 22 de novembro de 2017

As riquezas da História da Igreja: Parte 1

"E disse-lhes: Por isso, todo escriba que se fez discípulo do reino dos céus é semelhante a um homem, proprietário, que tira do seu tesouro coisas novas e velhas". (Mt 13.52)

Pretendo iniciar aqui uma série de artigos sobre as riquezas ocultas na História da Igreja. Muito tem se falado em nossos dias de "se olhar para frente", "quem vive de passado é museu" e outras frases do tipo que, apesar de serem úteis em certos contextos, são totalmente estúpidas em outro. Buscando atrair as multidões, muitas igrejas têm investido em uma nova liturgia, em novos costumes, em novas doutrinas, pois senão, dizem eles, as pessoas (especialmente os jovens), não virão. Investe-se num show, onde o emocionalismo é elevado ao extremo, potentes sistemas de som fazem tremer a terra, os pastores se assemelham a animadores de palco, buscando afagar o ego dos fiéis. As pessoas querem se sentir bem, sentir que são importantes, etc.  Esse pragmatismo tem se alastrado das igrejas pentecostais de segunda e terceira onda, de onde se originou, para as igrejas tradicionais  e pentecostais históricas. Um tesouro doutrinário, espiritual e litúrgico de dois mil anos tem sido lançado fora, pois pregar a salvação eterna não dá dinheiro, hinos antigos não agradam os jovens, pregar doutrinas afasta as pessoas, etc. Os tradicionais cultos cristãos, que eram teocêntricos, visando a glória de Deus acima de tudo, se tornam meios de fuga para pessoas confusas em meio a labuta de cada dia. O que quero mostrar nesta série de artigos , são as coisas boas de nossa nobre história, e sugerir como coisas boas dos tempos atuais podem dialogar com elas. O versículo que escolhi para o início do artigo pode ser aplicado a isto: aproveitando o que há de bom no passado e no presente, dentro do contexto eclesiástico.

TEOLOGIA: DOIS MIL ANOS DISCUTINDO SOBRE AS VERDADES DE DEUS
No meio evangélico brasileiro, ainda temos certo receio da teologia. Alguns, utilizando textos fora do contexto, dizem que não devemos estudar sistematicamente as verdades da fé, pois "a letra mata" (Clique aqui para ver o artigo que eu escrevi há alguns anos sobre o assunto). Há aqueles que dizem que os teólogos tentam ser os "psicólogos de Deus", o que seria um grande absurdo. E há aqueles que simplestemente não pensam no assunto, deixando "a banda passar" ao som de mantras gospel e pregações de auto-ajuda.
A Teologia cristã tem suas bases na teologia judaica, desenvolvida por grandes mestres como Hilel, Shammai, Gamaliel e outros. Os judeus da época de Cristo haviam desenvolvido sistemas de interpretação de seus textos sagrados, e se organizavam em grupos, de acordo com crenças, práticas e contextos sociais, como os fariseus, os saduceus, os essênios, etc.
Pode parecer estranho para muitos de nós, que costumamos pensar de forma desdenhosa ao ouvir o termo "fariseu", que esse grupo tenha influenciado muito a nascente teologia cristã. Vale lembrar que Jesus criticava os excessos e a hipocrisia da maioria dos fariseus,e não a doutrinas deles em si. Nosso Senhor e seus apóstolos pregavam a ressurreição do corpo, a existência de anjos e demônios e outras crenças em comum com esse grupo. O próprio apóstolo Paulo se identificou, em vários aspectos, com os fariseus. O monoteísmo e os atributos morais e ontológicos de Deus são a principal herança teológica judaica, assim como a lei moral.
Com o tempo, era natural que os seguidores do Mestre se afastassem do judaísmo e rumassem para o surgimento de uma tradição própria, que bebia em fontes judaicas mas trazia novos elementos, como a expiação atravéz de Cristo, a inclusão dos gentios no povo de Deus, uma Nova Aliança, e uma moral extremamente nobre, que os ensinava a amar até mesmo seus inimigos. Temos nas Escrituras do NT o desenvolvimento moral e doutrinário do nascente cristianismo sobre "as próprias pernas". O apóstolo Paulo, em suas epístolas, dá a base doutrinária compartilhada até hoje pelas tradições cristãs. Tratando dos citados assuntos e de muitos outros, como a universalidade do pecado, a divindade de Cristo e sua segunda vinda, ele torna-se o principal teólogo da história cristã. Paulo teria morrido por volta da década de  60d.C. Por volta da década de 90 d.C., morre João, o último dos apóstolos. Todos os livros que hoje recebemos como canônicos já haviam sido escritos.
Mas como esses livros foram interpretados? Quem selecionou a lista dos que fariam parte da Bíblia? Como continua essa história? Infelizmente, como já disse outro irmão da Assembleia de Deus, para muitos evangélicos, há um grande vazio entre as páginas do Novo Testamento e o surgimento de suas tradições (que raramente tem mais de cem anos). Eu proponho um passeio pela História da Igreja, para que com grande alegria possamos constatar que a promessa do Senhor, de que as portas do inferno não prevaleceriam contra a Igreja, é verdadeira e fiel.
O período que se segue ao dos apóstolos, é chamado de "patrístico". Os "pais da Igreja" foram os primeiros teólogos a escrever baseados nos dois testamentos. (Neste artigo, você pode saber um pouco mais sobre eles).  Lutando pela verdadeira fé, preservada na Tradição da Igreja, enfrentando perseguições e martírios, orando e estudando, dando testemunho diante de reis e generais, esses homens interpretaram as Escrituras, chegando em consensos doutrinários expressos através de credos e tratados. Dessa forma, complicadas questões que as Escrituras nos apresentam, como a natureza e as pessoas da divindade, o pecado e a graça, as naturezas de Jesus Cristo e o sacramentos, foram se esclarecendo. Esses homens também combateram perniciosas heresias que mestres ímpios tiravam de suas mentes poluídas.
Uma das primeiras heresias a surgir no meio cristão foi o gnosticismo. Mistura de certos princípios cristãos com o paganismo dos gentios e deturpadas escolas filosóficas gregas, esse grupo pregava que suas próprias interpretações das Escrituras, conhecimentos místicos transmitidos a certos iniciados e uma boa dose de ocultismo, eram a verdade de Cristo. Surge então um valoroso bispo, Irineu, que combate magistralmente esse erro. Irineu nos mostra que a verdadeira fé permaneceu entre os bispos e presbíteros da Igreja, que passavam adiante a Tradição e zelavam pelos textos do Novo Testamento (que, na época, ainda não estavam 100% definidos). Não havia espaço para novas revelações ou interpretações deturpadas. Posteriormente, outro religioso, Vicente de Lérins irá nos dizer que a ortodoxia (verdade de fé), ao menos nos pontos básicos, é perene e universal, enquanto a heresia é cronologicamente e geograficamente limitada.
Outras heresias foram surgindo na Igreja, como o maniqueísmo, o donatismo, o novacianismo,etc. As mais perniciosas eram as corrupções da verdade sobre a natureza de Deus. Assim sendo, Tertuliano, teólogo do século II, cria o termo Trindade para se referir ao Deus vivo e verdadeiro, em oposição aos hereges sabelianos, que diziam não haver três pessoas na divindade, mas sim três manifestações diferentes da mesma pessoa. Mais de um século depois, o presbítero Ário irá afirmar que Jesus Cristo não é Deus verdadeiro com o Pai, mas sim um deus inferior e criado. Atanásio de Alexandria e outros santos homens de Deus se levantarão contra essa heresia, estabelecendo de forma definitiva a doutrina da Trindade tal qual afirmada hoje pelas verdadeiras igrejas cristãs.
Na época, as lideranças discutiam tais assuntos promovendo "concílios ecumênicos", que eram reuniões gerais da igreja, ou seja, convocando líderes de todas as partes. O primeiro destes concílios foi o de Niceia, no ano 325, que afirmou, à luz das Escrituras e da Tradição,a divindade plena de Jesus Cristo. O segundo concílio foi o de Constantinopla, em 381, que afirmou a personalidade e divindade do Espírito Santo, além da natureza humana do Salvador. O terceiro e o quarto concílios ecumênicos foram os de Éfeso (em 431) e Calcedônia (451), que trataram das duas naturezas (humana e divina) do Senhor Jesus e a ligação entre elas. Esses quatro concílios afirmaram verdades que hoje em dia são aceitas pela esmagadora maioria dos teólogos sérios.
Mas alguém pode dizer: mas esses concílios não seriam uma violação do princípio de que apenas as Escrituras devem dirigir a Igreja? De modo nenhum. Os concílios apenas organizaram de forma definitiva e sistemática as doutrinas da Bíblia. Assim sendo, antes dos concílios de Niceia e Constantinopla ensinarem a doutrina da Trindade, a mesma Trindade era adorada nas orações, nos hinos e na liturgia da Igreja, desde a época dos apóstolos.
O cânon do Novo Testamento começa a ser definido no séc. II, com Irineu, o cânon de Muratori e outros autores. Geralmente, havia consenso quanto aos evangelhos e as cartas paulinas, mas obras como as epístolas aos Hebreus e as segunda e terceira de João, e o Apocalipse provocaram certo debate. O cânon tal qual conhecemos, com os vinte e sete livros, aparece de forma definitiva na Carta Pascal de Atanásio (367) e num concílio do Norte da África(393). Não, a Bíblia não caiu do céu com capa preta e tudo. Foram necessários três séculos para que o cânon se formasse. No entanto, podemos ter segurança de que estes livros eram exatamente os que o Espírito Santo queria. Uma série de critérios seguros foram adotados para se definir o cânon. Entre eles, temos: 1. Autoria datada do primeiro século, da parte de algum apóstolo ou de alguém intimamente ligado a ele  2.Estar de acordo com a regra de fé, conjunto de ensinamentos passados pelos cristãos de geração em geração através dos legítimos presbíteros da Igreja, como vimos no caso de Irineu  3. A frequencia e importância de tais textos na liturgia das comunidades cristãs fiéis de todo o mundo, com especial destaque para as igrejas de Jerusalém, Antioquia, Alexandria e Roma, consideradas as sedes mundiais do Cristianismo.

Os pais da Igreja abordaram vários outros assuntos também, como escatologia (Irineu, Agostinho,etc.); a natureza da igreja e dos sacramentos (Cipriano, Agostinho, Ambrósio,etc.), pecado, graça e livre-arbítrio (principalmente Agostinho). Esses teólogos ortodoxos foram pedras vivas de grande importância no edifício espiritual da Igreja, e são para nós grande fonte de conhecimento e espiritualidade. Os reformadores estudaram profundamente os pais, e no meio evangélico atual surgiu um novo interesse nestes santos, que nos precederam no sagrado caminho da fé. Vários grupos heréticos de nossos dias reavivam heresias daqueles tempos, e é importante estudar como esses santos os combateram. É necessário em nossos dias o estudo da Patrística para melhor entendimento de como se desenvolveu a Igreja primitiva e as bases de nossa fé.