segunda-feira, 17 de fevereiro de 2020

Comemoração da memória de Martinho Lutero (18 de Fevereiro)


                Martin Luder nasceu em 10 de Novembro de 1483, em Eisleben, na Alemanha central. Alemanha que, como unidade política, não existia. Seu atual território, juntamente com porções dos Países Baixos, norte da Itália e Europa Central, compunham uma união conhecida como Sacro Império Romano-Germânico, cujo imperador acumulava enorme poder no continente. Cada região/província/unidade dentro do Império era governada por um príncipe, duque ou arcebispo, que dispunha de certa autonomia em seus domínios. Era uma situação política complexa, que podia ser chamada de "colcha de retalhos".

                O mundo estava em transformação. A chegada dos europeus à América recém-descoberta; o movimento artístico-cultural do Renascimento; o desenvolvimento das Ciências; novas técnicas militares; a centralização das monarquias, os esforços bélicos contra os turcos;o contato com as grandes civilizações da África( Abissínia) e Oriente (Índias, China, Molucas e Japão). a invenção da imprensa; questionamentos religiosos de teólogos como Jan Hus e Girolamo Savonarola...Tudo mudava rapidamente.

                Martin era filho de Hans Luder, operário que, com muito esforço, consegui dar certo nível de seguridade à família e educação para os filhos.Hans queria muito que o filho fosse "alguém na vida", e se empenhava em custear seus estudos. Era no entanto, severo e brutal na disciplina e castigos. O jovem Martin estudou em escolas diversas, aprendeu o latim, formou-se bacharel e mestre em Artes, iniciando então os estudos de Direito, o que era de agrado do pai.

                No ano de 1505, com muitas questões na mente, Lutero passa ainda por uma experiência traumática. Após quase morrer atingido por um raio durante uma tempestade, promete a Santa Ana(segundo a Tradição cristã, era a mãe da bendita Virgem Maria) consagrar a vida à religião. Contra a vontade o pai, ingressa do Convento Negro dos Agostianianos, em Erfurt, sendo ordenado sacerdote em 1507. Devido à sua mente brilhante e cumprimento férreo dos deveres religiosos, acumulou cargos diversos. No entanto, o monge não sentia paz ou alegria em sua fé. Ao contrário de
Lutero em Erfurt.
outros monges do passado , a quem tanto admirava, como S. Bernardo de Claraval, Lutero só conseguia enxergar um Deus irado, severo e implacável. A Lei sem o Evangelho. A penitência sem a graça. O esforço sem o Espírito. Sua viagem a Roma tornou-o mais confuso: muitos dos clérigos e religiosos da cidade viviam em devassidão moral e crimes. A simonia e a superstição eram estimuladas. Os pontificados imorais de Alexandre VI e Júlio II constituíram uma triste mancha na Cristandade. O zelo e fé de pontífices como Inocencio III eram apenas lembranças vagas. Santos sacerdotes, monges e freiras escreviam e exortavam ao povo e à hierarquia da Igreja, derramando perante Deus as suas lágrimas em favor da Cristandade. Os "Diálogos" de Sta. Catarina de Sena são um testemunho pungente e profundo dessas almas piedosas, leais filhos de Deus e da Igreja.

                Certamente Lutero já havia lido muitas vezes as Escrituras em 1510. Além de sacerdote, era doutor em Teologia, e conhecia o latim muito bem. No entanto, o sentido do Evangelho não penetrara sua alma ferida e confusa. Ao analisar, com cuidado, o verso escríto pelo apóstolo S. Paulo , na epístola aos Romanos, de que "o justo viverá pela fé", compreendeu o que era realmente a justiça de Deus, que tanto o atemorizava. A salvação não era um prêmio a ser conquistado, mas um dom a ser recebido. As doutrinas da justificação pela fé apenas (sola fide), distinção entre Lei e Evangelho e a liberdade cristã são decorrentes dessa descoberta inicial. Resumindo o período, Lutero acumulou as funções de pároco municipal e professor universitário de teologia em Wittemberg, aonde o príncipe da região (Saxônia), o culto Frederico, estimulava o estudo e o conhecimento. Padre Luder deu aulas de exposição das Escrituras, às quais agora entendia com clareza, e não apenas na letra morta. Posteriormente, adaptaria seu sobrenome, Luder, para "Luther", num trocadilho com o termo grego para "liberto" (eleutherios).

                As indulgências, perdão eclesiástico concedido aos vivos ou aos mortos que padeciam no purgatório, eram baseadas num esquema de boas obras e méritos que poderiam ser transferidos dos santos na glória para os que não eram "perfeitos". Existiam há algum tempo na Igreja. O escândalo deu-se quando passaram a ser negociadas com dinheiro. Quanto o espalhafatoso frade dominicano Johann Tetzel chegou a Wittemberg, com suas promessas mirabolantes e declarações blasfemas contra Cristo e a Virgem, Luder encaminhou 95 Teses ao arcebispo de Mainz. Sendo sinceramente leal à Igreja e ao papa, pensava que a alta hierarquia iria combater os abusos dos vendedores de indulgências. Foi uma total decepção. Apesar de Tetzel ter sido severamente reprimido, a Igreja alegou que o erro de Luder era desfiar a autoridade do papa. Até então, ele fora fiel aos dogmas estabelecidos, mas com o passar dos anos opôs-se cada vez mais aos desvios acumulados desde a Idade Média.

                É de vital importância salientar que Lutero nunca quis criar uma nova religião ou igreja. Estudante assíduo dos Pais da Igreja Antiga(como Cipriano e Agostinho) e dos teólogos medievais (especialmente o já citado São Bernardo), cria firmemente na eficácia dos sacramentos, na continuidade histórica ininterrupta da Igreja de Cristo (conforme a promessa de Mateus 16) e conservou a maior parte da liturgia histórica. Ele desejava apenas purificar a Igreja Cristã (Católica) de todos os tempos dos abusos e excessos instituídos pelo papado ao longo dos séculos. Ao ser perseguido, condenado e excomungado por isso, foi forçado a assumir as rédeas de um novo ramo da Cristandade, que, contra sua vontade, passariam a ser conhecidos como "luteranos".

                Na década de 1520, escreveu livros diversos, como o "Magnificat", expondo a compreensão evangélica sobre a santa Mãe de Deus; "Do Cativeiro Babilônico da Igreja", no qual manteve apenas dois sacramentos oficiais (batismo e eucaristia), mantendo porém a penitência (confissão) em status elevado; e "Da Liberdade Cristã", que expressa a máxima " o cristão é senhor de tudo pela fé, mas servo de todos pelo amor". Músico habilidoso, escreveu/compôs/adpatou cerca de 37 hinos e cânticos ao longo da vida (sendo o mais famoso Ein Feste Burg, conhecido como " a Marselhesa da Reforma"), possibilitando aos cristãos alemães louvarem e suplicarem a Deus em sua própria língua e sem os processos intrincados do canto gregoriano da época.
Pintura de época representando um culto luterano.

                A sua tradução das Sagradas Escrituras deu uma base racional e unificadora para a língua alemã. Compositores como Bach, Mendelssohn e Brahms utilizaram a Bíblia de Lutero como fonte das letras de suas composições. O reformador era um grande defensor da necessidade de educação escolar e acadêmica para crianças e jovens. Um de seus tratados possui o nome de "Exortação aos pais para que mandem os filhos à escola". No entanto, também defendia que os jovens deveriam se divertir, brincar e dançar.E com a ajuda do amigo mais jovem, o brilhante Filipe Melancton, foram escritos os documentos mais importantes da teologia confessional luterana.

                Casando com a ex-monja cisterciense Katherine von Bora, desfiou as restrições da época ao casamento de clérigos. Tiveram seis filhos, vivendo rodeados de parentes, amigos e estudantes. Lutero faleceu em 18 de Fevereiro de 1546, numa viagem para mediar o conflito entre dois nobres, que eram irmãos de sangue. Sua última palavra foi um "sim", em resposta a pergunta do amigo Justus Jonas:



                "Reverendo Padre, quereis morrer firmado em Cristo e na doutrina que em seu nome ensinaste?"

O papa Francisco homenageia Lutero.
                Lutero foi um grande cristão e pastor da Igreja de Cristo. Ao mesmo tempo, como ele mesmo reconhecia, um miserável pecador. Irritava-se com facilidade, falava de modo grosseiro e se desentendia de maneira rude com outros teólogos (especialmente o suíço Zuinglio e os "profetas" anabatistas).. Seu polêmico livro sobre os judeus, a Guerra dos Camponeses e os conturbados relacionamentos conjugais do príncipe Filipe de Hesse (seu protetor e admirador), foram algumas das chamadas "manchas negras" na vida do reformador. Depois de quase cinco séculos, é considerado uma das personagens mais influentes da História, um homem que mudou o curso não só do Cristianismo, mas de toda a civilização. Reconhecido, pelo menos em certos aspectos, por pensadores tão diversos quanto Karl Marx e Goethe, foi homenageado recentemente até mesmo pelo líder da Igreja Católica Romana, o papa Francisco, onde cada vez mais tem sido visto como "um fiel filho da Igreja". Os avanços no diálogo ecumênico levaram católicos e protestantes a perceber que terminologias confusas, preconceitos e inflexibilidade constituíram boa parte das razões para esse triste ódio entre irmãos que se manteve por todo esse tempo. A Declaração Conjunta sobre a Justificação pela Fé (1999), assinada por católicos, luterano e (posteriormente) metodistas é um exemplo dessa reaproximação.


Oremos: Graças de damos, Deus de amor e justiça, pela vida do Bem-Aventurado Martinho Lutero, reformador da Santa Igreja Católica. Que ao seu exemplo de dedicação ao Evangelho e reconhecimento de seus pecados e indignidade, possamos seguir em comunhão com os cristãos de todos os grupos, avaliando a luz da vontade divina o legado de teu servo. Por nosso amado Senhor Jesus Cristo. Amém.



BIBLIOGRAFIA RECOMENDADA:
Obras Selecionadas. Comissão Interluterana de Literatura;
LUTERO, Martinho.  Magnificat -o Louvor de Maria. Editora Santuário; Editora Sinodal
LUTERO, Martinho. Do Cativeiro Babilônico da Igreja. Martin Claret
Clássicos da Reforma - Martinho Lutero - Uma coletânea de escritos. Editora Vida Nova
TILLICH, Paul. História do Pensamento Cristão, Editora ASTE
GEORGE, Timothy. Teologia dos Reformadores.  Editora Vida Nova.
CÉSAR, Elben M. Lenz. Conversas com Lutero.  Editora Ultimato

Nova Fase...

Olá, pessoal. A paz de Cristo!

Depois de muito tempo sem escrever, e após grandes mudanças em minha vida, resolvi retomar o blog. Permaneço firme na fé em Deus Pai, Filho e Espírito Santo, expressar na doutrina cristã e nas cinco solas da Reforma do século XVI. No entanto, em certos assuntos, mudei minha opinião, me tornei mais tolerante, ou ainda estou meditando, por isso não opinarei por enquanto. Estou reformulando algumas coisas no blog. Portanto, parte do que pode ser visto em postagens antigas não corresponde mais ao que creio ou ensino. Para maiores informações, sintam-se livre para entrar em contato no Facebook. Que Deus vos abençoe!

https://www.facebook.com/giovanivic

domingo, 7 de abril de 2019

Nisto creio


Na existência de um só Deus (Ef 4.5; Dt 6.4; ITm 2.5; Mc 12.29); eterno (Gn 21.33 Jr 10.10; Is 40.28), auto existente (Ex 3.14), onipotente (Jó 42.2, Sl 115.3), onipresente (Sl 139.7) onisciente (Sl 139 3,4; Jo 21.17).

Nos atributos morais de Deus. Ele é santo (Lv 21.8; Is 6.3; Ap 4.8), bom (Sl 135.3 Na 1.7; Lc 18.19) misericordioso (II Co 1.3; Sl 103.4; Lc 1.54) e justo (Sl 119.137; Sl 145.17 I Jo 3.7). Nele não há variação (Tg 1.17; Ml 3.6), e Ele não pode ser atingido pelas paixões comuns aos humanos.

O Deus eterno é trino, formado pelas hipóstases( ou pessoas) do Pai, do Filho e do Espírito Santo (Gn 1.1-3 Mt 28.19; Mc 1.10,11; 2Co 13.14), e uno (as pessoas estão unidas substancialmente). O Pai é Deus (II Co 1.3; Gl 1.3; Fp 1.2), o Filho é Deus(Tt 2.13; Rm 9.5; Hb 1.6; Jo 1.1; Jo 20.28) e o Espírito Santo é Deus (At 5.3-4; 2Co 3.17). Contudo não há três deuses, mas apenas um Deus. Aceito as definições trinitarianas dos credos nicenoconstantinopolitano e atanasiano.

Na concepção virginal (Is 7.14; Mt 1.23), encarnação (Jo 1.14;1Tm 3.16; 1Jo 4.2; 2Jo 1.7), batismo (Mt 3.13-16; Mc 1.9-11), ministério, morte expiatória (Is 53; 2Co 5.15, Rm 8.34; Cl 1.20), descida ao Hades (1Pe 3.19-20; Ef 4.8-9) ressurreição corporal (II Co 4.14; Jo 20; I Co 6.14; Mt 28; Lc 24.39), ascensão aos céus (Lc 24.51; At 1.9-11) e segunda vinda do Filho (Hb 10,37; I Ts 5.1-3; II Pe 3)

Nas duas naturezas (humana e divina) de Cristo, em perfeita união hipostática, de modo que Cristo é verdadeiro Deus (Jo 1.1; 1Jo 5.20) e verdadeiro homem (Jo 1.14), as duas naturezas formando uma só pessoa (Ef 4.5). Aceito as definições cristológicas dos concílios de Éfeso e Calcedônia como ortodoxas; desta maneira, Maria pode ser corretamente chamada de Theotokos (portadora/mãe de Deus). Em Jesus Cristo havia duas vontades, a humana (Mt 26.42) e a divina (Hb 10.7), sendo a primeira infalivelmente submetida à segunda (Jo 17.4).

No universo como obra de um Criador sábio e Todo-Poderoso (Gn 1-2), que tudo governa pela sua divina Providência (Dn 4.35; Jr 23.23; Is 43.13).

Na queda do homem (Gn 3; 1Co 15.21; Rm 5.12), que destituído de sua graça primordial tornou-se inimigo de Deus (Cl 1.21). Todos nós nascemos no pecado (Sl 51.5; Rm 5.12.18; Rm 3.23) , e estamos naturalmente sob a justa condenação de Deus (Ef 2.3; Jo 3.36).

No amor de Deus pela humanidade, que o levou a enviar o Filho para a salvação de todo àquele que nele crer (Jo 3.16; 1Jo 4.10).

Na salvação pela graça (Jo 1.26; Ef 2.5; Rm 3.24), mediante a fé apenas (Rm 1.17; Rm 5.1; Hc 2.4; Ef 2.8). Nossa obediência e nossas boas obras não podem nos salvar, sendo apenas resultados da fé verdadeira (Mt 7.17; Mt 12.33; II Tm 3.17; Hb 10.24).

Na predestinação incondicional, pela qual o Senhor preparou de antemão um número fixo de eleitos, de modo que apenas aqueles que foram preordenados para tal encontrarão a salvação ( Jr 31.3; Sl 65.4; Rm 9.6-29; Ef 1.3-8; 2Ts 2.13; Jo 15.16,19;). No entanto, o homem é o responsável pela sua própria condenação (Dt 30.15; Mt 26.37), e Deus de modo algum é o autor do mal (I Jo 1.5).

Na chamada eficaz e irresistível, pelo Espírito Santo, de todos os predestinados à vida eterna (Ez 11.19; Jo 6.44; Lc 14.16-24; 2Tm 1.9).

Na preservação de todos os eleitos de Deus, de tal modo que todos aqueles que passaram pelo novo nascimento certamente hão de ser conduzidos até o final por Deus, de modo que é impossível "perder a salvação"( Dt 30.6; Rm 8.39; 1Co 10.13; Jo 6.37; Fp 1.6).

Na constituição do ser humano em duas partes (Mt 10.28; Tg 2.25): corpo (a parte material) e alma/espírito (a parte imaterial, que é imortal, por vontade de Deus – At 7.59; Hb 12.22-23;Ap 6.9-11). No entanto, a esperança do cristão não deve ser posta na existência da alma imaterial junto a Deus, mas sim na existência plena de corpo e alma, que lhe será dada na ressurreição, junto a Deus.

Na Bíblia Sagrada, composta pelo Antigo Testamento (os 39 livros, de acordo com o costume do povo hebreu e dos reformadores protestantes) e pelo Novo Testamento ( os 27 livros, de acordo com o uso comum do Cristianismo). A Bíblia é a Palavra inspirada (II Tm 3.16), inerrante e infalível de Deus. Essa infalibilidade é restrita aos textos originais. Reconheço que traduções e versões diversas podem conter erros. Em língua portuguesa, versões como a Almeida, a Nova Versão Internacional e a Bíblia de Jerusalém são recomendadas por sua maior fidelidade aos textos originais. As Escrituras são a única regra de fé absoluta para o cristão (Jo 20.30-31; 2Tm 3.14-17; 2Pe 3.15-16) Aceitamos a tradição da Igreja (2Ts 2.15) e a razão(Is 1.18) como ferramentas hermenêuticas subordinadas às Escrituras (At 17.11).

Na Santa Igreja Católica (ou Universal) , o corpo místico de Cristo (Rm 12.5; I Co 12.27), formado por todos os eleitos de todos os lugares e épocas (I Co 12.13). Somente Deus conhece perfeitamente quem são seus eleitos (esta face da Igreja é invisível), mas existe a pregação pública do evangelho de Cristo (Mc 16.15. At 5.20; Rm 10.15), a ministração da palavra da reconciliação (Mt 16.19; Jo 20.23) e a celebração pública dos sacramentos, que nos permitem conhecer  a face visível da Igreja, encontrada nas igrejas protestantes, católica romana, ortodoxas e ortodoxas orientais (miafisistas).

Na prática do culto público (Hb 10.25; Cl 3.16; At 5.42), na qual os cristãos se reúnem oferecendo oração comum a Deus (At 1.14), recebendo os sacramentos da Nova Aliança e ouvindo a leitura e pregação da Palavra pelos designados. O culto público principal deve ser realizado no domingo (At 20.7), que é o dia do Senhor (Ap 1.10) na nova criação. A liturgia deve ser reverente e solene (Lv 19.30; Sl 89.7; Hc 2.20), possuindo uma estrutura básica (1Co 14.40), de forma a permitir, porém, adaptações de acordo com os tempos, culturas e ação extraordinária do Espírito Santo.

Na prática da oração como diálogo da alma com Deus. A oração particular deve ser simples, sincera, objetiva e de acordo com a palavra de Deus, submetendo-se à sua vontade (Mt 6.6-13). No culto público, é recomendável que as orações ditas pelo ministro ou pela congregação sejam recitadas, como o Pai Nosso, os credos, as orações eucarísticas,etc, o que representa melhor o espírito e propósito unificado do povo congregado, além de ser um forte princípio de ordem.

No ministério tríplice de administração da Igreja: diáconos (At 6.1-3. 1Tm 3.12, presbíteros(pastores – 3Jo 1; Tt 1.6; Ef 4.11) e bispos (1Tm 3.2).

Nos dois sacramentos divinamente instituídos na Nova Aliança: O batismo e a eucaristia (ceia do Senhor). Não são meros símbolos, concedendo graças espirituais àqueles que deles participam.
O sacramento do batismo é feito com água, em nome da Trindade (Mt 28.19; Ef 4.5; Cl 2.12). O batismo pode ser feito por imersão, aspersão ou derramamento. Aqueles que creem e os filhos pequenos dos crentes devem recebê-lo (At 2.39). O batismo não deve nem pode ser repetido (Ef 4.5), sendo o sacramento de entrada e regeneração da Nova Aliança (Tt 3.5; Jo 3.5; 1Jo 5.8; 1Pe 3.21)e , em situações ordinárias, indissolúvel a ela (Mc 16.16). É o equivalente neotestamentário da circuncisão (Cl 2.11-12).

O sacramento da eucaristia (Mt 26.26-19; I Co 11.23-34; At 2.42) como instituição perpétua da Igreja (I Co 11.26) e meio de graça para todos aqueles que se achegam a Deus. Todos os cristãos devem participar, recebendo ambos os elementos (pão e vinho). Cristo está presente espiritualmente neste sacramento, de modo que, para nós, o pão e o vinho são o seu corpo e o seu sangue.

Na habitação do Espírito Santo, terceira pessoa da Trindade, em todos os filhos de Deus ( Jo 14.16;; I Co 3.16; Rm 8.13-16). O Espírito é concedido na regeneração, também chamada de Novo 
Nascimento (Jo 3.1-10) e Batismo com o Espírito Santo (Mc 1.8; 1Co 12.13; At 19.2) , originando a conversão (At 14.15)

Na atualidade dos dons (ou carismas) do Espírito Santo mencionados nas Escrituras, como: profecias, discernimento, línguas, interpretação, etc.( Rm 12.6-8; 1Co 12; 1Co 14.12)

Na necessidade de uma vida piedosa mediante o poder do Espírito Santo (Lv 20.7; 1Pe 1.16; Rm 8.1-9), abandonando-se tudo aquilo que desagrada ao Criador. A vida cristã deve se pautar pela obediência dos mandamentos, resumidos por Cristo em dois: amar a Deus sobre todas as coisas, e ao próximo como a ti mesmo (Mt 22.34-40).

No casamento monogâmico (Gn 2.24; Ef 5.31) e heterossexual (Lv 18.22; Rm 1.18-27; 1Co 6.10; 1Tm 1.9-10) como instituição divina inviolável.

Em uma só volta de Cristo (Fp 4.5; Mt 25.31-46; 1Ts 5.1-4), para arrebatar a Igreja (1Ts 4.17), destruir a presente ordem (2Pe 3.11-12; Ap 14.8 Ap 20.9) e ressuscitar todos os mortos, tanto os que serão salvos, quanto os que serão condenados (Dn 12.2), realizando o Juízo Final. Interpreto o Milênio (Ap 20.1-2) como sendo uma alegoria para a dispensação da graça (Mt 12.29; Cl 2.13-15; Ap 12.10), e não literal. Israel perdeu o posto de povo de Deus (Dt 28; Mt 8.12;Mc 12.1-9; Rm 11.7-10), que foi transferido à Igreja (Is 54.1; Gl 6.16;Gl 4.21-31; 1Pe 2.9).

Numa vida eterna de gozo e paz perfeitos novo céu e nova terra (Ap 22; Mt 25.46; Dn 12.2), para aqueles que tornaram-se filhos de Deus, convertendo-se em vida (Jo 6.47);

No sofrimento eterno dos réprobos no lago de fogo, chamado de inferno ou geena (Ap 20.15; Mt 25.41-46; Mt 18.9).

Na importância da oposição à uma série de doutrinas e práticas religiosas de nossos dias, tais quais: "teologia liberal", "teologia da prosperidade", "teologia do processo", "teísmo aberto", "macroecumenismo" e muitos outros.

No conteúdo dos credos apostólico, niceno e atanasiano como resumos básicos da fé cristã.

O batismo infantil é uma prática correta?


Uma das questões que existem na igreja evangélica atual diz respeito ao batismo de bebês. Será que ele é legítimo? Ou será que ele é como disse um escritor, uma "verdadeira relíquia do papado"? Vejamos:

Nos dias de hoje, em nosso país, a grande maioria dos evangélicos consideram o batismo infantil um erro da ICAR, e que todos os que o receberam devem receber o batismo de novo para se tornarem membros de suas igrejas. Mas nem sempre foi assim. Na época da Reforma, quase todas as igrejas principais apoiavam o batismo infantil. Esse costume é conservado até hoje por elas (luterana, anglicana, reformada continental e presbiteriana).Mesmo outras igrejas surgidas depois, como a metodista, conservaram o hábito. Até mesmo algumas igrejas evangelicais o faziam, como a Igreja do Nazareno1 .Mas o que diz a Bíblia e o testemunho da história da igreja?

Primeiro temos de observar a origem e o significado do rito do batismo. Ele não foi criado pela igreja, mas baseava-se em uma série de lavagens e aspersões cerimoniais que a Lei Mosaica prescrevia (Lv 14.8 e Lev 16.4), além de referências proféticas (Ez 36.25). Povos como os persas possuíam costumes parecidos. Perto do início da era cristã, alguns grupos judeus (como os essênios) passaram a utilizá-lo, como símbolo de purificação2. Em outros círculos judaicos, quando um gentio queria se filiar à comunidade de Israel era recebido por circuncisão e lavagem cerimonial, juntamente com seus filhos pequenos. O filósofo judeu medieval Maimonides registra que tal prática sempre ocorrera em sua religião3.

Na Bíblia, o primeiro a praticar o batismo foi João Batista, primo do Senhor (Mt 3.1-6).O batismo estava ligado á confissão de pecados e arrependimento .Apesar de ter nascido livre do pecado original e de nunca ter pecado, Jesus recebeu o batismo(Mt 3.13-17), para cumprir a lei e se identificar com seu povo pecador (e assim, inaugurar a primeira fase do cumprimento da profecia de Isaias 53.12). Também é dito pelos antigos Pais que tal batismo foi uma benção e purificação das águas nas quais os cristãos seriam batizados a partir daí.. Também podemos enxergar o batismo do Senhor como um tipo de sua morte e ressurreição4, o que é corroborado pela relação que Ele faz entre batismo e morte em certas passagens.

O batismo é um sacramento, conforme diz o credo niceno, da remissão de pecados (Jo 3.5). Assim sendo, deve ser administrado à todos, pois todos os homens nascem sob o poder do pecado (Rm 3.23),e mesmo as criancinhas estão sujeitas a ele(Sl 51.5). Assim entendiam dois grandes teólogos da igreja primitiva: Cipriano de Cartago(?-258) e Agostinho(354-430).Esses dois homens de Deus defenderam a doutrina bíblica do pecado original, que permeia as Sagradas Escrituras. Hoje em dia, ela é aceita por todas as igrejas sérias no Ocidente.

 É também um "tiro no pé" por parte dos credobatistas usar o argumento de que "Cristo foi batizado apenas quando adulto", pois se usando essa lógica chegamos à conclusão de que o sacramento só pode ser recebido a partir dos 30 anos. E devemos nos lembrar de que o batismo cristão é um aperfeiçoamento do batismo de João, a sua iluminação e concretização. Após Cristo, o poder do nome da Trindade estaria associado a este sublime sacramento, chamado de lavar regenerador (Tt 3.5) e batismo que nos salva (1Pe 3.21). Tertuliano compara o batismo de João à uma promessa de remissão, e o batismo trinitário instituído por Cristo á sua consumação.

Mas a Bíblia, mesmo que não usarmos o batismo de João , registra apenas adultos batizados, como o eunuco etíope, Cornélio, Paulo...Não é?: Provavelmente não! Em várias passagens das Escrituras (At 16.33;At 16.14-15;I Co 11.16) é registrado o batismo de famílias. Geralmente famílias incluem crianças, ainda mais naquela época, em que a taxa de natalidade era elevada. 

Alguém poderia objetar que nas Escrituras não se vê explicitamente uma cena de batismo infantil. Ora, uso-me da argumentação do bispo anglicano J.C. Ryle: também não vemos explicitamente, no NT, mulheres participando da Ceia do Senhor. Devo então chegar a conclusão que elas não participavam? De modo algum. Esse "argumento de silêncio" não é válido neste caso.

Devemos lembrar que o batismo tem um paralelo com a circuncisão (Cl 2.11-12).Assim interpretaram os grandes teólogos ao longo dos séculos. Do mesmo modo que a circuncisão era o método de entrada à Antiga Aliança, o batismo o é para a Nova Aliança. Se crianças eram circuncidadas no AT (Gn 17.11-14),logo devem ser batizadas no NT!.

Alguém poderá dizer: Mas,e as mulheres? Elas não eram circuncidadas! Logo, essa comparação da circuncisão e batismo não é válida, pois, se as mulheres não estavam sujeitas á circuncisão, também podemos deduzir que as crianças não estão sujeitas ao batismo. Mas, vamos analisar bem esta situação:

No AT porque somente os homens eram circuncidados? Porque Deus escolheu esse sinal? A Bíblia não deixa claro, mas possivelmente temos duas respostas que se complementam:
1)A circuncisão era um ato sangrento. Assim, todos eram lembrados que sem derramamento de sangue não há perdão de pecados (Hb 9.22).
2)O fato do sinal ser aplicado ao órgão sexual talvez represente que é necessário uma força externa para salvar os homens(ou seja, que eles por si mesmos, do jeito que nasceram, não podem salvar a si próprios).

Mas, e o que dizer das mulheres? A maioria dos teólogos reformados tem uma resposta: as mulheres estavam "inclusas" nos seus homens, pois foi a mulher que foi criada a partir do homem, e isso talvez pudesse ser uma punição, pois a mulher foi quem primeiro pecou, . Assim, quando um homem fosse circuncidado, esse ato valia também para as mulheres relativas a ele. É consenso entre todos que elas eram inferiores aos homens naqueles tempos, diante da Lei. Por isso raramente são mencionadas mulheres nas genealogias, e o Espírito Santo não agia nelas como agia nos homens. Mas, com o advento da Graça, as mulheres tornaram-se iguais aos homens diante de Deus. Para Cristo, não há judeu, nem grego, nem servo, nem patrão, nem homem, nem mulher (Gl 3.28). Se o Espírito Santo desceu também sobre as mulheres e os corações das fiéis foram feitos templos de Deus, logo elas estavam conquistando uma nova posição de independência espiritual. Por isso as mulheres recebem também o batismo, e são chamadas a servir a Cristo como os homens (não entrarei aqui no assunto da ordenação feminina, pois esse não é o propósito do artigo). Também as criancinhas, tão amadas pelo Senhor, devem receber o sinal da Nova Aliança.

Outro argumento a favor do batismo infantil reside no fato de que os filhos dos crentes nascem santificados (I Co 7.14). Aparentemente, tal verdade parece chocar-se com a anterior. Mas poderíamos dizer que os filhos dos crentes nascem pecadores quanto à natureza, mas santificados quanto a uma espécie de graça divina. Ora, se Deus lhes concede uma benção espiritual, por que as negamos o símbolo desta benção?

O apóstolo Paulo também compara a passagem do mar Vermelho com o batismo (1Co 10.1-5). E sabemos que todo o povo judeu, inclusive as crianças, atravessou o mar.

Mas não é dito que primeiro deve-se crer do que ser batizado? À isto, poderíamos dar duas respostas diferentes: A) Não devemos usar apenas um texto das Escrituras para condenar uma ideia que a permeia. Podemos explicar essa colocação do evangelista com o simples fato de que em tal texto, como em diversos outros da Bíblia, a seguinte ordem obedecida é apenas uma questão de organização. Ou seja, a ordem poderia ser invertida, sem prejuízo para o entendimento do batismo. Poderíamos exemplificar da seguinte forma: Em um país, 50% da população é branca e 50% é negra. O fato de usar o branco antes do negro é apenas uma forma de organizar, por alguma outra razão (ex: os brancos possuem mais recursos econômicos),que poderia ser invertida. Assim, existe a crença antes do batismo, no caso de ímpios que se convertem à verdadeira fé, e a crença após o batismo, no caso dos filhos dos fiéis. Como, na época, o mais comum era um adulto se converter, está explicada a ordem dos fatores. Façamos aqui um exercício de imaginação: suponhamos que estivesse escrito “Quem for batizado e crer, será salvo”. Esses críticos então iriam ensinar que só os filhos dos cristãos seriam salvos. Os pagãos convencidos da verdade do Evangelho seriam desprezados, pois não haviam sido batizados antes de crer. Assim, a Igreja primitiva desmoronaria. B) Em várias passagens das Escrituras, parece possível que as crianças possuam a fé salvadora, mesmo que não possuam a capacidade intelectual para expressá-la. Davi afirma que o Senhor era o seu Deus desde o ventre de sua mãe (Sl 22.10). Jeremias foi santificado ainda no ventre (Jr 1.5). João Batista foi cheio do Espírito Santo ainda no ventre de Isabel (Lc 1.15). Se devemos crer para sermos salvos, segue-se que as crianças podem crer, senão não seriam salvas. Se não crêssemos que as crianças podem ser regeneradas, jamais poderíamos ensiná-las a orar o Pai nosso ou a chamar Jesus de amigo enquanto elas não “aceitassem a Jesus” (aliás, o apelo e a oração do pecador são uma invenção do século XVIII. Os Pais da Igreja, os teólogos medievais, os reformadores e os puritanos desconheciam tal prática). Podemos convergir os pontos A e B ao diferenciar regeneração de conversão, coisa que poucos evangélicos fazem atualmente, mas que sempre existiu na teologia reformada, embora os teólogos debatessem se a diferença era apenas lógica, ou lógica e cronológica. A regeneração é obra soberana da graça divina (Jo 6.37; Jr 13.23), na qual o homem, um cadáver espiritual (Ez 37), renasce (Ef 2.1). Depois, vem a conversão (At 3.19), na qual o homem renascido coopera com a graça de Deus a fim de trilhar o sagrado caminho da fé (Fp 2.12-13). O defunto ressuscitado segue seu caminho. Assim, Deus pode muito bem regenerar as crianças na tenra infância e estas, ao longo do desenvolvimento, manifestarão essa eleição através da conversão.

J.C. Ryle também elenca o seguinte fator: os judeus da época de Cristo estavam acostumados com o fato de seus filhos pequenos também receberem o sacramento da aliança (como já foi dito, a circuncisão). Era natural que pensassem: “Bem, se na aliança de Moisés nossos filhos recebiam o sinal, logo nesta nova e incomparavelmente mais sublime aliança também devem receber o sinal.” E esse sinal é o batismo. Se Jesus e os apóstolos desejassem que apenas os adultos recebessem o novo sacramento, teriam dito explicitamente. Se não o fizeram, era porque nesse aspecto o costume tradicional do povo (apresentar os filhos á aliança através do sacramento) deveria continuar. Assim, a ausência de menções específicas ao batismo dos pequenos é, na verdade, um argumento a favor da visão pedobatista5. Conforme já disse alguém, “a igreja não pode ser mais pobre do que a sinagoga”. A promessa diz respeito não apenas aos que assentem às verdades da fé, mas também aos seus filhos (At 2.39).

Agora que vimos o significado do sacramento do batismo e os motivos pelos quais não só os fiéis, mas também seus filhos pequenos devem passar por ele, vejamos o que nos diz o testemunho da história da igreja:

Irineu (130-200),discípulo de Policarpo(que foi discípulo do apóstolo João),escreveu que por Jesus, até mesmo as criancinhas poderiam renascer para Deus6. Trata-se de uma referência indireta à possibilidade do batismo infantil, visto que, na teologia patrística, batismo e regeneração estão intimamente ligados. Nota-se aí o testemunho de uma pessoa próxima aos apóstolos, de grande dignidade e de uma época em que a igreja era pura (muitos teólogos evangélicos dizem que a igreja começou a se contaminar a partir de 313,com Constantino. Apesar dessa alegação ser ridícula e absurda, para bem do argumento vamos compra-la).

O historiador evangélico Everett Ferguson reconhece que o batismo infantil era praticado desde muito cedo na Igreja Primitiva, embora não fosse unanimidade, nos séculos II e III. Ele tece o seguinte comentário: “De grande influência era João 3.5, o texto batismal mais citado na Igreja primitiva, do qual se entendia a necessidade do batismo à entrada no céu.” (FERGUSON, Everett. In: História da Igreja). O teólogo credobatista Marcos Granconato também concorda que no século II já se batizavam os bebês, e que a evidência patrística a favor de tal prática é ampla7.

Orígenes(185-255) escreveu "A Igreja recebeu dos apóstolos a tradição de dar batismo também aos recém-nascidos".

Cipriano de Cartago, já citado, escreveu especificamente: "do batismo e da graça não devemos afastar as crianças”8. Ele também afirmava que o batismo cobria o pecado original. Se, como já foi provado, todos nascem pecadores, segue-se que as crianças devem ser batizadas.         
      
Agostinho, considerado por muitos o maior dos Pais da Igreja registrou a seguinte informação: Desde a Antiguidade, a Igreja tem observado o batismo infantil. Agostinho discordaria desse artigo no tocante a possibilidade da fé pessoal da criança. No entanto, para o bispo de Hipona, apesar da criança não possuí-la, era incluída na fé da Igreja, dependendo exclusivamente da promessa objetiva que Cristo faz através dos sacramentos Entre outros Pais da Igreja que defenderam o batismo infantil, temos Hipólito de Roma (?-235 d.C.)9, Gregório de Nazianzo (329-390 d.C.) e  João Crisóstomo (347-407 d.C.). A partir do momento em que o batismo infantil é explicitamente citado na Patrística, todos os Pais da Igreja que o citam concordam com ele.

Além disso, o escritor luterano (e, posteriormente, ortodoxo) Jaroslav Pelikan, no primeiro volume de sua grande obra “A Tradição Cristã10, nos dá a entender que a doutrina do pecado original, largamente aceita pelos protestantes na atualidade, pode ter se desenvolvido como resposta à indagação: Porque batizamos as crianças?

A partir do século V, o batismo infantil passou a ser prática totalmente comum a toda a igreja universal, praticamente inquestionável, excetuando-se o cisma dos paulicianos11, grupo que até hoje gera debate entre os historiadores a respeito de suas práticas e crenças (seriam hereges gnósticos? Ou uma igreja fiel?), rapidamente extinto. Na Idade Média, as igrejas oficiais (Católica Romana e Ortodoxa) praticavam o pedobatismo. Alguns grupos cismáticos que buscavam a pureza do evangelho (que de acordo com seu entendimento haviam sido corrompidos) como os valdenses, possivelmente também praticavam o batismo de crianças.  Alguns escritores batistas e pentecostais também tentam dizer que os cátaros (ou albigenses) afirmaram a necessidade do batismo adulto. Mas os cátaros eram hereges gnósticos e dualistas12, dificilmente podemos considera-los um exemplo de ortodoxia ou grupo fiel. E esse suposto batismo, que era chamado de “consolamentum”, na verdade, era aplicado apenas a um grupo de privilegiados dentro da seita. Os demais, deveriam recebê-lo apenas na hora da morte

Durante a Reforma Protestante (séc. XVI),a maioria dos grandes teólogos conservou o batismo infantil. Compreendiam cada um a seu modo, que o pedobatismo deveria ser praticado.

Lutero (1483-1546),que pregou a justificação pela fé apenas(sola fide),dizia que o batismo tinha o poder de regenerar ,e assim continuou a prática pedobatista tradicional da igreja13. Ele também usava a perenidade desta prática como argumento de que o Espírito Santo a aprovava.

Zuínglio(1484-1531) foi autor de uma Reforma mais radical, em vários sentidos(por exemplo, eliminou as imagens das igrejas, coisa que Lutero não fez).Ele cria que o batismo em águas não tinha poder de comunicar alguma graça, era apenas um símbolo, mas, valendo-se do argumento de que o batismo é para o novo concerto o que a circuncisão era para o velho manteve a prática do pedobatismo, e foi ferrenho opositor daqueles que o negavam14.

Já Calvino (1509-1564) propôs um meio-termo entre a visão luterana e a zuingliana. Ele aceitava que o batismo era símbolo. Mas cria também que o mesmo era um "meio de graça"(embora não do mesmo modo que Lutero).Calvino também defendia o pedobatismo baseando-se no argumento da circuncisão. Fortemente influenciado por Agostinho (em cujos estudos encontrou argumentos para defender, entre outras coisas, a doutrina bíblica da predestinação incondicional),dizia que o batismo é um testemunho, um símbolo da remissão dos pecados. Se as crianças já nasciam pecadoras, obviamente deveriam ser batizadas! Relembrando a superioridade da Igreja em relação à Sinagoga, o reformador de Genebra escreve: Se as crianças cristãs não puderem ser batizadas, elas ficarão em desvantagem em relação às crianças judias, as quais eram pública e externamente seladas e introduzidas na comunidade da aliança através da circuncisão (Institutas da Religião Cristã). A igreja protestante da Inglaterra (Anglicana) manteve também a prática do batismo infantil15.

A partir da Reforma na Alemanha, surgiram grupos que pregavam que o batismo deveria ser ministrado apenas aos adultos. Tais grupos ficaram conhecidos como “anabatistas”. Curiosamente, apesar de sua prática rigidamente credobatista, os anabatistas praticavam o batismo por aspersão. Esses grupos dariam origem aos batistas, que batizam apenas por imersão. Os anabatistas eram duramente combatidos e chamados de hereges não só pelos católicos romanos, mas também pelos outros grupos protestantes (luteranos, reformados e anglicanos).

Nos séculos que se seguiram, a discussão continuou a existir. No entanto, os que defendiam e os que condenavam o batismo infantil passaram a viver de forma mais cordial. Por exemplo, no séc. XVII, o pastor batista John Bunyan(famoso autor de "O Peregrino") recebia em sua igreja cristãos batizados na infância sem exigir o rebatismo. John Wesley, fundador da Igreja Metodista, também defendeu o batismo dos pequeninos.

Hoje em dia, a discussão ainda prossegue. Presbiterianos, reformados continentais, anglicanos, metodistas e luteranos praticam o batismo infantil. Batistas e pentecostais só batizam adultos. Os principais documentos confessionais da Reforma protestante prescrevem o batismo infantil como a Confissão de Augsburgo, a Confissão de Westminster e os 39 Artigos de Religião.

Para o escritor Gregory Shane Morris, a principal razão pela qual muitos evangélicos se opõe ao batismo infantil não é uma base ou texto bíblicos, mas sim as lentes com as quais se lê a Bíblia16. Com uma fé altamente individualista, em que a Igreja e os sacramentos são apenas um símbolo, criou-se a necessidade de se “aceitar a Jesus”, e estabelecer esse momento específico como o marco em que uma pessoa escolhe o bem e deixa de estar morta em Adão, para ser vivificada em Cristo (como se um morto pudesse ressuscitar a si próprio!). Tal marco é importante no caso de um pagão que ouve o Evangelho e crê nele, mas numa tradição cristã, aonde crianças já nascem na fé, tal prática é no mínimo duvidosa. Mais importante do que saber exatamente quando nos convertemos, é saber que de fato nos convertemos. Assim sendo, nossos filhos devem desde cedo invocar o nome de Jesus e crer nele para o perdão dos pecados, sem necessidade de uma conversão pirotécnica.

Para concluir, as igrejas que não praticam o batismo infantil, geralmente têm a prática de apresentar as crianças a Deus numa cerimônia breve e simples. No entanto, não temos nas Escrituras mandamento de fazê-lo. Como não? De onde você tirou esse absurdo, Giovani? Jesus não foi apresentado (Lc 2.22) assim como eram as crianças judias? Na verdade, a apresentação de Jesus foi algo particular, para cumprir a profecia que “O Senhor viria ao seu templo” (Ml 3.1). Não havia entre os judeus a prática de apresentar crianças. As únicas coisas próximas a isso eram a purificação das mães e a consagração dos primogênitos (Ex 13.2). Como o nome já diz, apenas os primogênitos eram consagrados, e assim Jesus o foi. Não estou dizendo que as crianças não possam ser apresentadas dessa maneira mas, se já mostramos que elas podem ser batizadas, porquê não batizá-las?

BIBLIOGRAFIA
1Church of the Nazarene Manual, em http://2017.manual.nazarene.org/
2Novo Dicionário de Teologia. São Paulo. Hagnos. 2011
3KOEHLER, Edward W.A. em Sumário da Doutrina Cristã. Porto Alegre. Concórdia. 1981
4RATZINGER, Joseph: “ Jesus de Nazaré – Do batismo no Jordão à Transfiguração”. São Paulo. Planeta. 2016
5RYLE, J.C.  O Batismo. Projeto Ryle. Disponível em https://livros.gospelmais.com.br/files/livro-ebook-o-batismo.pdf
6IRENEU DE LIÃO: “Contra as Heresias. Col. Patrística”. Paulus. 2016.
8CIPRIANO DE CARTAGO, Epístola a Fido, disponível em http://www.newadvent.org/fathers/050658.htm
9 HIPÓLITO DE ROMA, em Tradição Apostólica, disponível em https://www.ecclesia.com.br/biblioteca/pais_da_igreja/tradicao_apostolica_hipolito_roma.html
10 PELIKAN, Jaroslav: “A Tradição Cristã- O Surgimento da Tradição Católica”. São Paulo. Shedd Publicações. 2014.
11 FERGUSON, Everett: “História da Igreja – Vol. 1”. Rio de Janeiro. Central Gospel. 2017
12 PELIKAN, Jaroslav: “ A Tradição Cristã – O Desenvolvimento da Teologia Medieval.”São Paulo. Shedd Publicações. 2015
13 LUTERO, Martinho: “Catecismo Maior” em “Clássicos da Reforma – Martinho Lutero”. São Paulo. Vida Nova. 2017.
14 GEORGE, Timothy: “Teologia dos Reformadores”. São Paulo. Vida Nova. 1993.
15 Os 39 Artigos de Religião.


quarta-feira, 27 de fevereiro de 2019

Isaias 53 garante a plena saúde física ainda nesta vida?


Muitos neopentecostais usam a clássica passagem de Isaías 53 para afirmar que os cristãos não podem/devem ficar enfermos, pois Cristo teria levado suas doenças na cruz, de forma que, mesmo nessa vida, devemos gozar de plena saúde física. Ao consultarmos o contexto da profecia de Isaías, vemos que tais enfermidades se referem, principalmente, às enfermidades espirituais, às feridas e chagas provocadas pelo pecado. Para tentar provar que tal cura se refere a enfermidades físicas reais, utilizam a alusão da profecia em Mateus 8.17 onde aparece claramente relacionada à cura física. No entanto, tal argumento é um tiro no pé, pois o texto de Isaías (e a própria teologia neopentecostal) associa a plena saúde física à expiação de Cristo na cruz, enquanto a citação da profecia por Marcos é feita durante o ministério terreno de Jesus, três anos antes de sua morte! Apesar de vermos que a cura física também está incluída,toda esta questão só pode ser resolvida se abraçarmos a doutrina bíblica e unânime na História da Igreja de que boa parte das profecias do Antigo Testamento, que são referidas no Novo, se cumprem espiritualmente e em vislumbre (como At 15.16, 1Co 15.20-23 - A promessa da ressurreição do povo de Deus é cumprida, em vislumbre, pela ressurreição de Cristo, como indício da ressurreição final deste povo, no futuro). Assim sendo, as curas físicas, realizadas por Jesus, pelos apóstolos, e pelas orações da Igreja ao longo da História são um vislumbre da plena saúde física que nossos corpos glorificados gozarão na eternidade (1Co 15.54 –note que o texto descreve o atual estado do nosso corpo como “corruptível”, ou seja, sujeito a doença e morte). Podemos ver no Novo Testamento várias menções de cristãos enfermos, sem que a enfermidade seja atribuída à incredulidade. Paulo, que a tantos enfermos curou milagrosamente, recomenda ao discípulo Timóteo que tome uma mistura de vinho e água para suas enfermidades estomacais (1Tm 5.23). Em nenhum momento Paulo “exige” ou “determina” a cura, e nem diz a Timóteo que a morte de Cristo o livrou das enfermidades. Ora, Paulo costumava falar dos benefícios da paixão do Senhor, muitas vezes o fez (Ef 1.1-12; Rm 3.23-25; Rm 5.6-9;; Rm 6.10-11; 1Co 15.3; 2Co 5.18-19; Gl 2.20-21; Cl 1.21-22; Tt 2.13-14), mas nunca citou a saúde física nesta vida como sendo algo oriundo dela. Pelo contrário, ele reconhece que nosso corpo se corrompe (2Co 4.16). O grande doutor dos gentios também deixou o amigo Trófimo doente (2Tm 4.20), não pôde curá-lo. Por fim, embora posteriormente curado, o discípulo Epafrodito passou pela experiência da enfermidade, e Paulo atribui sua cura ao misericordioso desígnio de Deus e sua compaixão (Fp 2.25-27), e não a um suposto direito conseguido na cruz. Paulo também teve um "espinho na carne", não sabemos ao certo se era uma enfermidade, fraqueza ou outra natureza de provação. Mas os leitores da Bíblia bem sabem que Deus não lhe removeu esta dificuldade (2Co 12.7-9)



 Alguns apontam Tiago 5.14-15 como garantia de que, com a oração, todos os enfermos seriam curado. Mas uma análise do texto, com frequentes menções a pecados, confissão e perdão apontam que a cura é prometida, provavelmente, apenas em enfermidades devidas a pecados cometidos pelos enfermos. A ênfase é dada em "salvar o doente", e sabemos que o termo "salvação", no Novo Testamento, está quase sempre ligado a coisas espirituais eternas. Quanto a enfermidades comuns (i.e. decorrentes da natureza, etc.), mesmo havendo a unção, a resposta de Deus pode ser "sim" ou "não", e devemos orar para que sua vontade soberana e inescrutável seja realizada (Mt 6.10; Lc 22.42). O reformador Martinho Lutero reconheceu em seu tratado "Do cativeiro babilônico da Igreja" que apenas uma minoria era curada, mesmo os devidamente ungidos em nome do Senhor. Além disso, devemos lembrar que os defensores do suposto direito não conseguem encontrar nenhum outro versículo no Novo Testamente que dê suporte à sua teoria.  Se fôssemos falar de História da Igreja, os argumentos contra a teologia da prosperidade seriam ainda mais numerosos. Grandes servos de Deus, ao longo da História, morreram vítimas de enfermidades. De Agostinho a Daniel Berg. De Francisco de Assis à Calvino. Os Pais da Igreja, os teólogos monásticos medievais, os reformadores, os puritanos, os avivalistas, todos eles consideravam que a enfermidade é uma possibilidade real na vida de um cristão verdadeiro, e que, muitas vezes, não é da vontade de Deus curá-la. Também devemos lembrar que vários dos processos corporais que levam à “morte natural” são os mesmos que levam às enfermidades (desgaste das células,etc.), de maneira que, se Cristo levou as enfermidades físicas na cruz de forma perfeita, e tal benção deve ser fruída de forma total ainda nessa vida, os crentes também deveriam também ser imortais!

O que o cristão deve fazer em caso de enfermidades? Sem dúvidas pode orar pedindo a cura, em nome de Jesus. Deus curou muitos enfermos ao longo da História da Igreja, como fazia nos Evangelhos, mas o cristão maduro deve ter diante de si a possibilidade de que o milagre não ocorra. Para sermos francos, deveríamos reconhecer que, geralmente, Deus usa mais as causas secundárias e elementos terrenos para curar enfermidades, do que intervenções sobrenaturais e miraculosas. Em todos os casos, a confiança deve ser posta na Providência divina, que age de forma onipotente (Is 43.13) e não pode ser manipulada por nós. Existirão muitos casos em nem os remédios e terapias, e nem a oração resultarão na cura das enfermidades. Então, cabe a nós abraçar essa cruz resignadamente (Jo 16.33; Lc 9.23-24), confiando os nossos sofrimentos à paternal bondade do Senhor, pedindo paciência e perseverança na enfermidade, mirando sempre à promessa da felicidade completa na vida eterna (Fp 3.14).