segunda-feira, 30 de outubro de 2017

A CORROMPIDA IGREJA EVANGÉLICA ATUAL PRECISA DE UMA NOVA REFORMA

                


                 
                      Hoje, celebramos os 500 anos da Reforma Protestante. Esse grande avivamento na Igreja de Cristo, iniciado pelo monge alemão Martinho Lutero, mudaria não apenas o Cristianismo, mas toda a história da civilização ocidental. Eu poderia dizer muita coisa sobre o assunto, mas como sou um inveterado pessimista (como bem conhecem os mais próximos), falarei sobre a violação sistemática que igrejas ditas protestantes (ou evangélicas) cometem contra os cinco grandes princípios da Reforma, inteiramente baseados nas Escrituras e fielmente apregoados pelos grandes teólogos protestantes ortodoxos dos últimos cinco séculos. Muitos crentes vivem sendo guiados por supostas revelações, estão tomados pelo medo de perder a salvação (como Lutero antes de conhecer a graça de Deus) e idolatram homens (como os leigos ignorantes de sua época faziam). Vejamos os cinco pontos e as violações cometidas:

SOLA GRATIA – SOMENTE A GRAÇA

O que significa? Que somos salvos apenas pela graça de Deus, não tendo méritos ou qualidades em nós mesmos.

TEXTO BÍBLICO:
                "Estando nós ainda mortos em nossas ofensas, nos vivificou juntamente com Cristo (pela graça sois  salvos)"Efésios 2:5

                Um dos grandes líderes da teologia da prosperidade afirma em uma de suas obras que todo homem merece ser salvo. Mesmo em meio aos arraiais conservadores, é comum a velha crença de que o homem, por si é bom. Assim sendo, a importante doutrina do pecado original, outrora vigorosamente defendida por Agostinho, é totalmente esquecida. Já vi pregadores pentecostais afirmarem que as crianças nascem totalmente puras (Sl 51.5).
                Na  verdade, as Escrituras dizem que todos pecaram (I Re 8.46; Rm 5.12), que, por natureza, estamos mortos no pecado (Ef 2.1; Cl 2.13), somos inimigos de Deus (Cl 1.21), e com nossos juízos corrompidos pelo mal (Is 64.6). Quando nossos pais caíram no Éden (Gn 3), todos nós caímos. Mas para que ninguém diga que Deus é injusto ao condenar-nos por pecados cometidos num tempo antiquíssimo por um casal, sabemos que, a cada dia, juntamos a este pecado original uma multidão de pecados pessoais, que nos fazem dignos da morte eterna. Assim sendo, o homem é mal, e totalmente depravado. Não no sentido de que faça todo o mal imaginável, mas porque todas as áreas de sua vida estão corrompidas pelo pecado.
                Lancemos fora de nosso meio esse evangelho "light" que diz que o homem é bom (Gn 8.21), que pode por suas próprias forças vir à Deus (Jr 13.23). Essa heresia, chamada de pelagianismo, já foi refutada por Agostinho a mil e seiscentos anos. E os reformadores foram enfáticos em condenar suas premissas.

SOLA FIDE- SOMENTE A FÉ

O que significa? Que somos salvos ao depositar totalmente nossa confiança em Cristo, de forma verdadeira, e não por nossas boas obras ou cumprimento da lei.

TEXTO BÍBLICO:
                     "Concluímos, pois, que o homem é justificado pela fé sem as obras da lei".(   Romanos 3:28)

                Essa doutrina é frequentemente violada nos púlpitos das igrejas brasileiras, principalmente pentecostais e neopentecostais. A principal queixa de Lutero contra a Igreja medieval residia no fato de que esta havia se tornado uma religião de méritos. Apregoava que a salvação vem, sim, primeiramente da graça de Deus, mas que devemos conservá-la por nossa obediência e boas obras. Para mim, tudo aquilo que nós protestantes consideramos errado na Igreja de Roma tem origem nessa meritocracia. Ora, é óbvio que, se a fé em Cristo não me basta, tenho que me apoiar em vários pilares para garantir a minha salvação: a hierarquia da igreja, aqueles que foram mais fiéis do que eu em vida , os corpos destes santos, objetos ungidos, e todo excesso sacramental e eclesiológico da Igreja Romana.
                O herege Edir Macedo é um claro exemplo de pastor (pastor?) que nega a "sola fide". Recentemente, afirmou que a salvação pela graça, mediante a fé (Ef 2.8), é uma doutrina diabólica. Ele já dava mostras de ser um semipelagiano em vários artigos que escreveu. Muitos pastores afirmam que somos salvos apenas se tivermos uma perfeita obediência. Assim, se cometermos alguns "pecados" (como jogar videogame, torcer para um time de futebol, ir à praia,etc.), perdemos a salvação. Ora, isso é a meritocracia de Roma levada ao extremo. Ao menos em Roma, os fiéis tem a hipótese da purificação no fogo do purgatório caso morram em algum pecado não muito grave. Mas em nossas igrejas, infelizmente, em minha denominação, muitos pastores não dão a mínima chance para quem cai em pecados (que, muitas vezes, nem pecados são!).  A doutrina da salvação pela fé apenas nos garante que a manutenção de nossa salvação não está em nossas frágeis mãos, mas no cuidado divino (Fp 2.13; Rm 8.30-39; Jo 10.28,29; Fp 1.6). Nenhum de nós tem capacidade para cumprir plenamente os mandamentos de Deus. A obediência de Cristo cobre a nossa desobediência. Não perderemos a salvação por cometer qualquer erro. Devemos, sim, ser obedientes aos mandamentos, mas por amor à Deus e ao próximo, e não por medo de perder a salvação.

SOLA SCRIPTURA - SOMENTE A ESCRITURA

O que significa? Que as Escrituras inspiradas (os 39 livros do Antigo e os 27 do Novo Testamento) devem ser a única fonte de doutrina, prática e dogmas cristãos.

TEXTO BÍBLICO:

                "Ora, estes foram mais nobres do que os que estavam em Tessalônica, porque de  bom  grado receberam a  palavra, examinando cada dia nas Escrituras se estas eram assim (At   17.11)
                 
               As Escrituras são a nossa única regra de fé. Apesar de andarem de um lado para o outro com a Bíblia debaixo do braço, muitos evangélicos colocam ao lado dela, como regras de fé, a tradição de sua denominação e supostas revelações e profecias que ouvem na igreja. Eu creio que o dom de profecia, revelações e coisas do tipo ainda existem em nossos dias (I Co 12), mas jamais podem ser colocadas ao lado da Bíblia para se estabelecer uma crença. Algumas vezes, essas "revelações"  e "ensinamentos celestiais" são absurdos, negando doutrinas importantes. Podemos ouvir coisas como: "Deus falou pro irmão fulano que mulher que corta cabelo não vai para o céu" (negação da sola fide); "O irmão tal teve uma visão de que o missionário sicrano é quem vai chamar os nomes daqueles que entrarão no céu" (negação do solus Christus); e outras aberrações teológicas deste naipe. As regras, catecismos, usos e costumes de nossas igrejas devem passar pelo critério da confirmação bíblica. A mesma coisa com supostas revelações.
               
             Outro ponto que merece destaque é o fato de que muitos pastores distorcem as Escrituras para provar suas teses. Houve o caso de um documento de  certa igreja afirmar que os irmãos não poderiam usar barba pelo fato de que José se barbeou para ir à presença de Faraó(!). As Escrituras necessitam de ferramentas interpretativas, e é muito importante para o cristão (especialmente para os obreiros) conhecerem essas ferramentas através da teologia.


SOLUS CHRISTUS- SOMENTE CRISTO

O que significa? Que apenas Cristo pode conduzir o homem a Deus, e que a teologia cristã deve girar em torno de sua pessoa e obra.

TEXTO BÌBLICO:

                "Porque há um só Deus, e um só Mediador entre Deus e os homens, Jesus Cristo  homem". (ITimóteo 2:5)

                Os evangélicos costumam criticar duramente os católicos por colocarem Maria e os santos mortos como mediadores ao lado de Cristo. Vivem gritando por todos os cantos a passagem da epístola paulina, de que há um só Mediador entre Deus e os homens, Mas, na prática, muitos deles praticam uma obediência cega a seus líderes, dizendo que perderão a salvação caso não o fizerem, que o líder é o ungido de Deus, tendo uma relação especial com o Senhor, por isso devem se colocar sob a"cobertura espiritual" do bispo ou apóstolo. Conforme o exemplo que eu citei no ponto anterior, em certa igreja pentecostal alguém teve a revelação de que seria seu líder quem chamaria os nomes dos que entrarão no céu. Em outro caso, um membro de uma igreja  neopentecostal afirmou que o apóstolo beltrano é o enviado de Deus para nos salvar. Além de colocarem homens mortais entre eles mesmos e Deus, muitos evangélicos criam toda uma superstição em relação a objetos ungidos (água, rosas, sabonetes,etc.) como meios de graça e da benção divina.

SOLI DEO GLORIA- GLÓRIA SOMENTE A DEUS

O que significa? Que devemos fazer tudo para a glória de Deus, e que apenas Ele é digno de louvor supremo, adoração e obediência irrestrita.

TEXTO BÍBLICO:

                "Portanto, quer comais quer bebais, ou façais outra qualquer coisa, fazei tudo para   glória de Deus"(I Co 10.31)
                 
                A Bíblia nos diz que toda a glória pertence a Deus, e que devemos fazer tudo para a sua glória. Mas o que vemos em nosso meio é que muita coisa é feita para a glória do homem. Geralmente, aqueles que violam o "soli Deo gloria" são os mesmos que violam o "solus Christus". Assim sendo, as pessoas seguem toda sorte de orientação espúria de seus líderes (Jr 29.9; At 5.29), e acabam fazendo a obra para eles, e não para Deus. Desprezando o sábio conselho de João Batista (Jo 3.30), esses líderes querem aparecer, como outrora o mago Simão (At 8.9). Tenho a impressão de que muitas igrejas neopentecostais, quando seus líderes morrerem, acabarão, pois a tanta ênfase em suas figuras, que eles se tornam o núcleo em torno do qual se aglutinam seus fiéis.

                Portanto, vemos que muitas das igrejas ditas "protestantes", precisam resgatar os princípios da Reforma, a fim de pregar ao mundo o verdadeiro e puro Evangelho de Cristo. As igrejas de hoje vivem impondo medo nos fiéis com ameaças de perdição eterna para aqueles que não cumprirem os mandamentos humanos e terrenos de seus líderes, muitas vezes baseados em supostas revelações e num uso distorcido das Escrituras. Precisamos urgentemente de uma Reforma, pois essas igrejas estão no mesmo buraco (ou ainda mais fundo) do que a Igreja Católica Romana do século XV.

domingo, 22 de outubro de 2017

A Reforma Protestante e a espiritualidade clássica

NOTA DO EDITOR: NÃO CONCORDO COM 100% DO TEXTO, MAS NO GERAL É ÓTIMO.
A Reforma Protestante e a espiritualidade clássica
Osmar Ludovico

A igreja evangélica atual tem origem na Reforma, e ao longo do tempo recebeu a contribuição de diversos movimentos, como anabatismo, puritanismo, pietismo, avivamentos do século 18, sociedades missionárias, fundamentalismo, pentecostalismo clássico e missão integral. O conjunto destes movimentos iniciados com a Reforma é o que conhecemos como protestantismo. Vivemos atualmente sob o impacto do controverso movimento neopentecostal. Foram sopros do Espírito Santo ao longo da história, intervenções de Deus para dentro da realidade humana, com suas instituições, seu poder político e econômico. Nenhum destes movimentos é perfeito -- cada um deles tem luzes e sombras. É um equívoco abraçar algum deles incondicionalmente. A tendência que se observa é abraçar um destes movimentos como a última e definitiva revelação de Deus e excluir os demais, considerando-os inferiores e muitas vezes até hereges.

Como cada um destes movimentos tem aspectos positivos e negativos, torna-se fácil criticá-los e combatê-los, principalmente porque, em geral, a partir da segunda e da terceira gerações após a visitação de Deus, a tendência é o engessamento e a institucionalização, com suas estruturas de poder.

Ser evangélico hoje significa andar nos passos dos reformadores e destas outras contribuições, seja buscando alguma integração, seja na ênfase de uma só delas. No entanto, não se trata de eleger uma ou outra, mas de discernir o sopro do Espírito, que, de tempos em tempos, renova algum aspecto que foi negligenciado ou esquecido da teologia e da prática de Jesus de Nazaré. Trata-se de julgar e reter o que há de bom em cada uma delas e receber com alegria esta preciosa herança, aprendendo com a história e com aqueles que trilharam o caminho da fé, da esperança e do amor antes de nós.

A Reforma aconteceu no século 16. O que podemos aprender dos primeiros 1500 anos da história da Igreja? Muitos evangélicos esclarecidos dizem: nada. Antes da Reforma só existiam duas igrejas cristãs: a romana e a ortodoxa. Lutero e Calvino eram agostinianos e lemos abundantes citações dos Pais da Igreja nas “Institutas” de Calvino. Precisamos confessar, como evangélicos, nosso preconceito e orgulho. Até hoje, olhamos com suspeita para tudo o que aconteceu no seio da Igreja de Cristo anterior à Reforma por considerar esta contribuição como católico-romana e achar que do catolicismo não pode vir nada valioso.

Durante os primeiros 1500 anos de história da Igreja, o Espírito Santo soprou várias vezes. A espiritualidade clássica engloba a contribuição dos santos e doutores da igreja nos movimentos da patrística, da monástica e da mística medieval, isto é, o vento do Espírito anterior à Reforma.

O que se observa hoje é que alguns protestantes se debruçam sobre este período, a espiritualidade clássica, com o desejo de aprender e integrar na experiência evangélica aquilo que há de bom. Evangélicos como Hans Burki, James Houston, Eugene Peterson, Alister McGrath, Richard Foster, Ricardo Barbosa estão redescobrindo a riqueza da espiritualidade clássica, como contribuição vital para a igreja de hoje. Católicos contemporâneos, como Henri Nouwen, Anselm Grun, Thomas Merton e outros, também buscam resgatar esta tradição. A Comunidade de Taizé, fundada pelo reformado Irmão Roger, tem alcançado muitos jovens na Europa e outros países, com sua proposta de reconciliação, integrando o que há de bom nas tradições ortodoxa, católica e reformada.

É uma falácia achar que a Reforma do século 16, apesar de sua importância fundamental, é o único e definitivo mover do Espírito Santo na história da Igreja e que nada de bom aconteceu nos séculos precedentes. Felizmente, para nós, estes antigos movimentos estão documentados e podemos aprender com eles.

Alguns esclarecimentos que se fazem importantes acerca da espiritualidade clássica:
1. Não é um produto. Não é mais uma mercadoria na prateleira religiosa para um mercado ávido por consumir novidades. Trata-se de um olhar mais profundo para os conteúdos e a prática da fé cristã, ancorado na experiência com a Palavra e com o Espírito Santo, para vivermos a vida de Cristo em nós.

2. Não é uma prática mística, alienante, baseada em técnicas religiosas que produzem sensações agradáveis e felicidade instantânea. Suas ênfases no silêncio e na solitude, na meditação e na contemplação não são fins em si mesmos, mas meios para uma vida de santidade e serviço ao próximo. Com a “Lectio Divina”, nós evangélicos podemos resgatar uma leitura bíblica com o coração, com os afetos.

3. Embora a monástica seja malvista pelos evangélicos, é inegável seu impacto no Ocidente. No terceiro século, após a conversão de Constantino e de o cristianismo se tornar a religião oficial do império, homens e mulheres se retiraram em regiões ermas e remotas para orar e ler a Bíblia. Surgiram os mosteiros e as regras. Ao redor do mosteiro floresceu a civilização ocidental: a biblioteca gerou a academia, o espaço do sagrado atraiu artistas, o “ora et labora” desenvolveu tecnologias de cultivo, preparo e conservação de alimentos.

4. O resgate da espiritualidade clássica não busca resultados, ou conquistar o mundo; muito menos causar um impacto na igreja. Em vez disso, se remete ao simples, ao pequeno, ao fraco. Não é para ser “marqueteado”, sistematizado, explicado, reproduzido. Não busca uma recompensa imediata. Não é para ganhar nada; é um caminho para aqueles que amam o Pai, o Filho e o Espírito Santo, para aqueles que abriram mão do poder e querem simplesmente crescer na comunhão com Deus, ouvir sua voz e responder com dedicação e consagração.

A “multiforme” sabedoria de Deus não é uma experiência de conhecimento que pertence a um indivíduo, a um grupo ou a um movimento. Ela engloba o patrimônio de revelação de Deus por meio da história da Igreja. Ou seja, as muitas vezes que o Espírito Santo revitalizou, renovou, corrigiu, avivou e despertou o povo de Deus de seus desvios e acomodações ao longo dos séculos e através das nações, nas três confissões cristãs: ortodoxa, romana e reformada.

Para isto, há que se vencer o preconceito evangélico, que considera que tudo o que é católico é herético e, ao fazer isto, se autoproclama dono da verdade. Assim rejeita o Pastor de Hermas, Clemente, Justino, Inácio de Antioquia, Orígenes, Policarpo, Pacômio, Antão, Bento, Atanásio, Crisóstomo, Gregório Nazianzeno, Basílio, Agostinho, Bento, Bernardo de Claraval, Francisco de Assis, Tomás de Aquino, Catarina de Siena, Inácio de Loyola, Savonarola, João da Cruz, Tereza D’Ávila, Bartolomeu de las Casas, Tereza de Calcutá e muitos outros. Estou certo de que a leitura dos pais orientais, dos santos místicos e dos doutores do passado e a apreciação do exemplo de suas vidas podem contribuir decisivamente para a igreja do século 21.

E, claro, integrando com a contribuição de John Wycliffe, Jan Huss, Lutero, Calvino, Zwínglio, George Fox, John Bunyan, John Knox, Conde Von Zinzendorf, John Wesley, Jacob Spener, George Whitefield, Charles Finney, Jonathan Edwards, D. L. Moddy, William Carey, Hudson Taylor, David Livingstone, William Booth, Karl Barth, Paul Tillich, Dietrich Bonhoeffer, Martin Luther King, John Stott, René Padilla, Samuel Escobar e tantos outros.

Sim, sou um reformado evangélico: “Sola Scriptura”, “Sola Gratia”, “Sola Fide”, “Solus Christus”, “Soli Deo Gloria”. E aberto para aprender e integrar a espiritualidade clássica em minha experiência cristã. Aprecio e sou edificado com o que aconteceu em Niceia (325), Monte Cassino (529), Assis (1223), Wittenberg (1517), Westminster (1647), Azuza Street (1905), Medellin (1968), Lausanne (1974) e com outros momentos em que o Espírito soprou na história da Igreja. É importante e promissor este diálogo entre a Reforma Protestante e a espiritualidade clássica, integrando o que há de bom nestes movimentos.

E prossigo no meu caminho: na intimidade com o Pai, sob a direção da Palavra e a inspiração do Espírito Santo; buscando a santidade de Cristo e, com a Igreja, anunciando o evangelho e servindo aos pobres. Quando falho, me arrependo, experimento a graça perdoadora e recomeço.


• Osmar Ludovico da Silva foi pastor durante trinta anos e hoje dedica-se a dirigir grupos de formação espiritual. Mora com a esposa, Isabelle, em Lauro de Freitas, BA, e participa da Igreja Batista de Vilas do Atlântico. É autor de “Meditatio” e se identifica com a missão integral e a espiritualidade clássica.

in: http://www.ultimato.com.br/revista/artigos/320/a-reforma-protestante-e-a-espiritualidade-classica

terça-feira, 17 de outubro de 2017

Inácio de Antioquia

Hoje é celebrada a memória de Inácio de Antioquia. Tendo vivido entre os séculos I e II,  foi bispo dessa importante cidade. Inácio combateu a heresia docetista, que negava a natureza humana de Cristo, foi o primeiro a utilizar o termo "Igreja católica" para se referir à universalidade da noiva do Cordeiro e registra que os cristãos se reuniam para o culto público aos domingos (o que contraria a tese de alguns que afirmam ser o culto da igreja primitiva realizado aos sábados). Conheceu os apóstolos Paulo e João. Foi martirizado no Coliseu, devorado por leões, por ordem do imperador Trajano. Restam-nos sete epístolas deste santo mártir: A Policarpo, aos Efésios, aos Esmirniotas, aos Filadélfos, aos Magnésios, aos Romanos e aos Trálios. Nesta cartas, ele demonstra profunda espiritualidade e cuidado pastoral. Abaixo, temos uma pequena seleção de trechos:

"Existe apenas um médico, carnal e espiritual, gerado e não gerado. Deus feito carne, Filho de Maria e Filho de Deus, vida verdadeira na morte, vida primeiro passível e agora impassível, Jesus Cristo nosso Senhor"( Carta aos Efésios)
"Aqueles que, para terem crédito, misturam Jesus Cristo consigo mesmos, são como aqueles que oferecem veneno mortal misturado com vinho melado. O incauto o toma com prazer, mas nesse prazer nefasto lhe dá a própria morte".(Carta aos Tralianos)
"Agradeço a Jesus Cristo, que vos tornou tão sábios. De fato, constatei que sois perfeitos na fé imutável, como que pregados na carne e no espírito à cruz de Jesus Cristo e confirmados no amor do seu sangue. Estais plenamente convencidos de que nosso Senhor é verdadeiramente da descendência de Davi segundo a carne, Filho de Deus segundo a vontade e o poder de Deus, nascido verdadeiramente da virgem, batizado por João, para que toda a justiça fosse cumprida por ele. Ele foi realmente pregado por nós em sua carne, sob Pôncio Pilatos e o tetrarca Herodes. È graças a esse fruto, à sua divina e feliz paixão que nós existimos, a fim de erguer para sempre um estandarte pela ressurreição para seus santos e fiéis, tanto judeus como pagãos, no corpo único da sua Igreja.
Ele sofreu tudo isso por nós, para que sejamos salvos. E ele sofreu realmente, assim como ressuscitou verdadeiramente. Não sofreu apenas na aparência, como dizem alguns incrédulos ."(Carta aos Esmirniotas)
          Inácio foi uma testemunha do Evangelho, que enfrentou corajosamente a morte por amor a Cristo, devendo seu exemplo de fé ser relembrado por nós do século XXI. Ele é considerado um dos "Pais da Igreja", pertencendo, juntamente com Clemente de Roma e Policarpo, ao subgrupo dos "Pais apostólicos".

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Movimento de Convergência

NOTA DO EDITOR: 1.Não concordo com 100% do artigo, mas mesmo assim o considero muito bom e oportuno. 2. O termo "procissões", usado pelo autor, não se refere ao costume católico romano de se levar imagens de Cristo ou dos santos pelas ruas, tributando-lhes o culto de "dulia", mas à prática de uma entrada solene dos ministros na igreja, prática que existe em não só no catolicismo, mas em vários grupos anglicanos, luteranos e reformados.



Movimento de Convergência

 “Por isso, todo o escriba instruído acerca do reino dos céus é semelhante a um pai de família, que tira do seu tesouro coisas novas e velhas” - Mateus 13:52

Esta passagem bíblica resume a fonte do descobrimento de uma corrente de pensamento e renovação através do Corpo de Cristo.
Descrito como o Movimento de Convergência  ou “Convergência das Correntes”, este insipiente movimento aparece, tanto para os observadores como para os participantes, como outra evidência contemporânea da ação continuada de Deus na história, para renovar, restabelecer e unificar o seu povo em um mesmo sentir e propósito em Cristo.
O Movimento de Convergência surgiu a partir do desejo e do sentir comum de se ter uma plena experiência da espiritualidade cristã. Para facilitar, neste artigo, chamaremos este movimento pela sigla “MC”. 
Seu principal objetivo é trabalhar na convergência ou união dos elementos essenciais da fé, ordem e prática cristã associando as correntes: carismática/pentecostal; evangélica/reformada e litúrgica/sacramental. Desta forma, um número crescente de congregações e líderes locais de muitas outras denominações, estão encontrando “tesouros velhos e novos” herdados espiritualmente da Igreja universal.
O gráfico seguinte, desenvolvido pela liderança da Igreja Hosanna ao Rei, localizada na área metropolitana de Kansas City, ilustra os elementos essenciais e substanciais que estão sendo praticados pela maioria dos participantes no movimento, nos seguintes pontos:

Litúrgico / Sacramental
Evangélico
Carismático
A teologia
A base bíblica
O ministério quíntuplo e o governo
A ortodoxia
A conversão pessoal
O poder do Espírito
A universalidade
O evangelismo e a missão
Os dons espirituais
O culto litúrgico
O culto centrado no púlpito
A adoração carismática
A ação social
A santidade pessoal
O reino
A compreensão da encarnação da Igreja (baseada na teologia, na história e nos elementos sacramentais do pensamento)
A compreensão bíblica e reformada da Igreja (pragmática e racional)
A compreensão da Igreja como espiritual, orgânica e
funcional (dinâmica e
informal)

A combinação ou convergência dessas tradições é vista como a obra do Espírito Santo que compartilha sua graça, como vemos na visão do Salmo 46:4-5 “Há um rio cujas correntes alegram a cidade de Deus, o santuário das moradas do Altíssimo. Deus está no meio dela; não se abalará. Deus a ajudará, já ao romper da manhã”.
Deste modo, a “Cidade de Deus“ é vista como a Igreja; o rio, como a ação e o fluir de sua presença na Igreja e, as muitas correntes, como expressões do rio que vão sendo desenvolvidas e bifurcadas do rio principal através da história.
Todas as correntes são necessárias para enriquecer e alegrar a cidade de Deus com a plenitude da vida, o poder, o propósito e a sua presença. Hoje nos encontramos num tempo no qual as correntes parecem correr até o rio e se unir cada vez mais. O ministro anglicano David Watson escreveu em seu livro "Eu Creio na Igreja" o seguinte: “Este rompimento com Roma (a Reforma), apesar de inevitável, devido à corrupção do tempo, desgraçadamente produziu sucessivas divisões que tem partido em mil pedaços o Corpo de Cristo, com um resultado que, hoje, a missão da Igreja é gravemente invalidada pela variedade desconcertante de denominações... Assim sendo, a Igreja é uma cristandade dividida e separada não obstante isto ser um escândalo e, cremos, todos os cristãos necessitam arrepender-se deste fato profundamente...”. Esta chamada para seguir adiante é o desejo de muitos no MC que querem ver as correntes da Igreja juntas.
Wayne Boosahda e Randy Sly, da Igreja de Hosanna del Rey, expressaram a convicção de que “distantes dos dias da Reforma, agora vemos o coração de Deus movendo-se até uma categoria de reforma ao inverso ou a restauração de uma Igreja Santa, Católica e Apostólica (católico aqui usado para se referir ao mais amplo sentido da Igreja de Jesus Cristo, como Universal)”.

A História do seu Aparecimento e Crescimento
O Movimento de Convergência parece ter duas fontes antecedentes em duas áreas de renovação espiritual e culto da Igreja neste século: a renovação carismática contemporânea e o movimento de renovação litúrgica, incluindo católicos e protestantes.
A renovação carismática começou no início dos anos 1960 e se desenvolveu principalmente no meio das denominações. A renovação uniu elementos pentecostais e carismáticos, tais como santidade, profecia e espontaneidade de louvor e adoração, com os elementos mais tradicionais (e eventualmente, católico romanos) das práticas litúrgica e reformada.
O que alguns chamaram de a “Terceira Onda” ou o “Movimento de Sinais e Maravilhas” começou em volta de 1978 com o aparecimento do ministério de Jonh Wimber e as Igrejas da Videira que surgiram através do seu trabalho. James Robinson, Jim Hylton, Ray Robinson, além de outros líderes batistas do sul, presenciaram uma onda que se chamou “O Movimento da Plenitude” que tocou principalmente a CBS. Peter Wagner e outros membros do Seminário Teológico Fuller, formalizaram o movimento através de seus escritos e atuaram como um filtro e ponto de enfoque. A Terceira Onda foi descrita por algumas pessoas como um epílogo da Renovação Carismática, reunindo os elementos carismáticos do culto - experiência e pratica, com a tradição evangélica.
A outra influência chave sobre MC foi o movimento de renovação litúrgica, que surgiu originariamente na França dentro da Igreja Católica Romana e em Oxford através do Movimento Tractariano da Igreja da Inglaterra no século XIX. A renovação litúrgica causou um ressurgimento do interesse de retornar à essência, ao espírito e à forma do culto cristão antigo, como foi praticado e entendido pela Igreja primitiva dos primeiros oito séculos. O enfoque particular foi dado aos pais apostólicos da Igreja primitiva e indivisa até o ano 390 d.c. As descobertas e o enriquecimento da teologia e a prática do culto e o ministério daquela era fértil foi derramado nas Igrejas protestantes e começou a ter um grande impacto sobre elas por volta de 1950.
Há um componente comum no atual MC que veio desses movimentos anteriores que é o grande desejo e a preocupação pela unidade de todo o Corpo de Cristo, a Igreja. Não obstante não ter se associado com o Movimento Ecumênico oficial do Concílio Mundial de Igrejas, o MC tem um grande desejo de aprender com outras tradições de culto e espiritualidade que estejam além de sua própria tradição, buscando assim integrar estas descobertas em sua própria prática e experiência no caminho da fé.
Verdadeiramente, muitos líderes no movimento descrevem sua experiência como um caminho ou peregrinação convincente. Desta forma, buscaram através de acontecimentos soberanos, relações pessoais, leitura de livros ou idéias ocasionais, uma melhor compreensão da Igreja e, sendo assim, chegaram a conclusões que eram bastante diferentes de suas prévias perspectivas e de seus antecessores.
Um caso em evidência foi Richard Foster, de antecedente quaker, cuja peregrinação pessoal o dirigiu para escrever o clássico “A Celebração da Disciplina” em que ele enfoca uma prática integrada de disciplinas espirituais perfiladas desde as cinco tradições básicas da espiritualidade na Igreja através da história. Como resultado de seu enfoque revelador, Foster convocou uma conferência em 1988 chamada “Renovare” que se reuniu em Wichita, Kentucky. Essa conferência e o objetivo de renovação converteram-se nos precursores diretos do conceito de convergência de correntes.
Sem ser reconhecido abertamente até 1985, constata-se, que muitas pessoas conheceram o MC no caminho proveniente de várias transformações da Igreja que tiveram experiências e pontos de vista semelhantes ou idênticos. De uma em uma, congregações e líderes foram se conhecendo com a sensação de que Deus estava fazendo alguma coisa em um nível básico semelhante a um rio subterrâneo que está perto de sair para superfície.
Os pioneiros contemporâneos do MC, que formaram seu conhecimento e pensamento, são homens como o Dr. Robert Webber – autor e professor de Teologia em Wheaton College; o Dr. Robert Stamps - antigo capelão da Universidade Oral Roberts; Peter Gillquist - antigo líder e agora um sacerdote e evangelista ortodoxo; Thomas Howard, de St. John Seminary; Thomas Oden – o teólogo e autor da Drew University; Howard Snyder - teólogo, autor e educador cristão; Stan White – antigo pastor da Assembléia de Deus e agora um sacerdote episcopal e outros como David Duplessis - ministro pentecostal e precursor do diálogo carismático ecumênico entre católicos romanos e pentecostais; o atual arcebispo de Cantuária George Carey; a Ordem Litúrgica de São Lucas dos Metodistas Unidos e Peter Hocken – teólogo católico romano.
Como podemos ver, o MC tem a capacidade de agregar pessoas que vêm de uma profunda transformação, desde fundamentalistas e evangélicos ao anglicanismo/episcopal e protestantes e, desde pentecostais clássicos e carismáticos independentes a católicos e ortodoxos. Apesar de nem todos os que foram citados fazerem parte diretamente do MC, sem nenhuma dúvida, ajudaram a formar e influenciaram a visão, pensamento e prática desenvolvida dos que lá estão.
Robert Weber escreveu vários livros chaves na história e na prática do culto cristão tais como “Culto Antigo e Novo“, “A Adoração é um Verbo” e “Sinais e Prodígios - O Fenômeno de Convergência nas Igrejas Modernas: Litúrgicas e Carismáticas”, os quais tem sido sumamente influentes no movimento. Seu livro “Evangélicos no Estreito Caminho de Cantuária”, descreve uma tendência de cristãos evangélicos que se unem as Igrejas litúrgicas e suas razões. Este livro foi uma das primeiras descobertas para muitos que agora trabalham claramente em uma perspectiva de convergência.
O maior conhecimento público do novo movimento veio por Stan White, um jovem da quarta geração de pastores da Assembléia de Deus de Valdosta, Georgia, que fomentou um grande debate quando tomou toda sua congregação carismática independente e foi para a Igreja Episcopal. A história foi contada pela revista “Cristianismo Hoje” em setembro de 1990 com o título: “Por que os bispos foram a Valdosta?”. A revista Carisma, a principal voz do movimento carismático, publicou um artigo em abril de 1991 sobre a ida de Stan White até uma Igreja que era completamente carismática, completamente evangélica, completamente litúrgica e sacramental.
Peter Giliquist, um líder do Ágape (Cruzada Estudantil para Cristo) nos anos 60, deixou o movimento Ágape com vários outros líderes próximos em busca da verdadeira Igreja do Novo Testamento. O livro de Giliquist “Fazendo-se Ortodoxo - Uma Viagem à Fé Cristã Antiga”, descreve uma crônica de sua peregrinação fascinante em busca, através do estudo e investigação, da Igreja primitiva durante quinze anos. Seus descobrimentos os dirigiram a serem recebidos e incluídos por completo na Igreja Ortodoxa de Antioquia. Dois mil crentes evangélicos/carismáticos que formaram a associação das quinze congregações que eles haviam fundado, foram recebidos também no ramo da Igreja Ortodoxa de Antioquia.
Quando as notícias desses acontecimentos começaram a circular, vários líderes começaram a identificar algo novo e foram alentados pelo fato de reconhecerem que Deus estava verdadeiramente restaurando uma fé antiga em um mundo novo. Assim, esses líderes ficaram, de fato, aliviados ao descobrir que não eram os únicos que pensavam dessa maneira ou estavam convencidos por esta visão. De uma forma inesperada, pareceu que Deus estava confirmando sua chamada através do início de uma visão de unidade do Corpo de Cristo baseada na oração de Jesus em João 17 e na sua declaração em João 10:16 “Tenho outras ovelhas que não são deste aprisco. É necessário que eu as conduza também. Elas ouvirão a minha voz, e haverá um só rebanho e um só pastor” (NVI). Pareceu a eles ser uma unidade que não só ultrapassaria as fronteiras, mas que também dirigiria à ampliação e ao enriquecimento da fé, da visão, do culto e da prática da plenitude em toda a Igreja.
Dois grupos chaves de congregações locais que representavam e refletiam a visão, os valores e as práticas reveladas no MC se encontram nas áreas metropolitanas de Kansas e Oklahoma. A Igreja Hosanna del Rey, fundada em 1988 no Kansas como uma congregação carismática independente, foi um instrumento utilizado por Deus para despertar interesses e compartilhar, localmente e mais além, o despertar da convergência de correntes. Aberta por Wayne e Stephanie Boosahda, a Igreja é agora pastoreada por Randy e Sandy Sly, que vêm trabalhando junto com Boosahda numa forte ênfase quanto ao fomento do conhecimento desta obra do Espírito de Deus.
Também encontramos nessa linha de convergência, congregações episcopais, carismáticas e evangélicas independentes. Os pastores Ron Mccrarye, da Igreja Episcopal de Cristo e Randall Davey, da Igreja Nazarena Overland Park, representam outros dois líderes e congregações impactados pelo pensamento e pela prática do MC.
Em Oklahoma, os pastores Mike e Beth Owen da Igreja do Espírito Santo, originalmente uma Igreja da Videira e o Dr. Robert Wise e sua esposa Margarita, da Igreja Comunitária do Redentor juntos com suas congregações, impactaram uma área de Oklahoma quando compartilharam suas experiências com outras congregações e líderes, especialmente dentro de círculos litúrgicos e carismáticos. Eles desenvolveram fortes vínculos com os de Kansas e, dessa forma, formalizaram a visão e os valores essenciais do movimento em nível nacional e internacional.
Essas Igrejas e seus líderes, juntamente com vários outros membros da Igreja de Jesus Cristo, estão convencidos de que se encontram envolvidos com algo significativo na história e na promessa para “a Igreja Una, Santa, Católica e Apostólica” de Jesus Cristo em nosso tempo.

Os Elementos Comuns de Igrejas de Convergência
Aqueles que são atraídos pelo Senhor a esta convergência de correntes são caracterizados por vários elementos comuns. Ao mesmo tempo, não obstante não estarem em ordem de importância, eles parecem formar a base para a direção e o enfoque do MC.

1. Um compromisso de restaurar os sacramentos, especialmente a Mesa do Senhor.
Os membros provenientes das correntes evangélicas e carismáticas da Igreja não tem enfatizado realmente a dimensão sacramental da Igreja. De fato, para eles, o Batismo e a Santa Comunhão são vistos mais como ordenanças do que como sacramentos - as ordens do Senhor devem ser empreendidas pela Igreja, porém, não por um propósito, mas pela obediência. Analisando por uma perspectiva mais sacramental, estas duas expressões da vida da Igreja se vêem como santas e sagradas ao Senhor, símbolos com verdadeiro significado espiritual usados como um ponto de contato entre o homem e Deus. A presença do Senhor e do seu poder se libera nestes atos e o adorador os encontra por meio dos elementos.

2. Um desejo maior de conhecer mais sobre a igreja primitiva
Para muitos cristãos, existiu um vazio entre as páginas do Novo Testamento e a Igreja contemporânea. Isto deixou o Corpo desconectado, sem herança histórica. Como um barco à deriva, a Igreja tem tido dificuldades, ao longo dos tempos, em explicar quem é, de onde veio ou por que existe. Uma mudança recente, dentro desta perspectiva, fez com que a Igreja começasse a reencontrar suas raízes de tal forma a gerar uma conexão comum no contexto do Reino de Deus. O estudo da Igreja primitiva deu oportunidade a muitos de verem os princípios da Igreja do Novo Testamento levados a cabo pelos doze apóstolos e seus seguidores. Esses textos proporcionaram uma conexão com a época mais recente, explicando como a Igreja primitiva entendia sua fé e suas práticas, como adorava e como liderava um movimento crescente. Assim, a História do Corpo de Cristo pode ser descrita através das gerações posteriores, com seus êxitos e fracassos.

3. Amor e aceitação pela Igreja inteira e um desejo de ver a Igreja como uma.
As várias expressões do cristianismo permaneceram em seus elementos distintos por muitos anos através da separação sectária e das denominações. As Igrejas de convergência olham para mais além dessas barreiras artificiais para alentar, apreciar e aprender mais acerca da singularidade que encontramos nas diferentes comunidades de fé. A oração de Jesus em João 17 é o chamado à Igreja para ser como um Corpo, não mediante a doutrinas ou dogmas, senão a estar embaixo da unidade da Pessoa de Jesus Cristo - há unidade em nossa diversidade. Este sentido de unidade não requer de nenhuma Igreja renegar sua expressão própria como Corpo de Cristo, mas ao mesmo tempo nos chama a apreciar e acolher a variedade e a beleza da Igreja mundial ao longo da história. As igrejas de convergência apreciam a chegada das várias correntes de outras Igrejas. A chamada das Igrejas do MC é: “ser uma, seguir adiante, juntas, para representar um povo unido em Cristo para alcançar um mundo ferido e doente”. Isso é diferente do ecumenismo barato pregado por muitos grupos ecumênicos.

4. A incorporação das práticas das três correntes é cada vez mais evidente apesar da ênfase de cada igreja ser diferente em sua experiência de convergência.
Uma Igreja não tem que mudar necessariamente sua identidade quando chega a fazer parte do movimento de convergência. A maioria das Igrejas de convergência tem uma base principal - ou uma expressão própria – que está diretamente ligada à corrente que a gerou. Dessa forma, elas podem ser episcopais, ortodoxas, batistas, nazarenas, carismáticas etc. e, mesmo assim, expressam elementos de culto e ministérios de outras correntes. Existem 3 tipos de Igrejas de convergência que são as mais comuns hoje: as Igrejas integradas, as inclusivas e as Igrejas de rede.

As Igrejas integradas têm mantido sua identidade original. A esta base, agregam em suas práticas de culto e ministério elementos das outras correntes que não possuem. Isto tem sido muito comum entre as Igrejas litúrgicas/sacramentais e também nas Igrejas mescladas, que são fundadas entre as correntes evangélicas e carismáticas. A igreja Nazarena Overland Park, Kansas, se enquadra claramente no MC apesar de permanecer fortemente identificada com sua herança confessional.

As Igrejas inclusivas são aquelas que sofreram uma metamorfose ao se tornaram parte do MC. Principalmente, de fundo carismático e evangélico, estas igrejas se encontram em si mesmas identificadas tão de perto com outras correntes que chegam a modificar a si mesmas e muitas chegam a fazer parte das confissões litúrgicas/sacramentais. A Igreja do Rei (Valdosta, Geórgia), a qual mencionamos no início deste artigo, é provavelmente a Igreja inclusiva mais conhecida nos últimos anos.

As Igrejas de rede são as mais independentes que têm feito parte do MC e deixaram suas associações anteriores, porém escolheram permanecer independentes. Suas conexões se baseiam em relações fortes com outras Igrejas similares. A maioria delas provém da corrente carismática.

5. Um interesse de integrar estrutura com a espontaneidade no culto
À medida que o Espírito de Deus continua movendo-se poderosamente no mundo, novos odres (ou estruturas) são requeridos para conter o poder e o potencial do vinho novo. Apesar da maioria dos cristãos futuristas esperarem que os odres novos sejam compostos de Igrejas mais abertas e espontâneas, com uma estrutura menos enfática, o Espírito, independentemente do presente, ressalta a impressão de que isto seria como verter vinho em uma rede de peixes, especialmente em cristãos norte-americanos.
O fogo santo de Deus se acende em fornos de fé nos quais a estrutura, associada às formas litúrgicas, permitem que o poder seja compartilhado sem o temor de cair-se em erros. As liturgias se reintroduzem para trazer um equilíbrio necessário ao culto entre todos os elementos que as escrituras revelam como sendo necessários para adorar a Deus em Espírito e em verdade.
A palavra “liturgia”, significa literalmente “o serviço das pessoas”. Pela implementação dos elementos litúrgicos, o culto passa a ser o serviço do corpo na adoração, no arrependimento, no escutar das Escrituras e na celebração da morte e ressurreição de Cristo. Dentro dessas formas, sempre se pode encontrar liberdade para a ação espontânea do Espírito. Os credos históricos da Igreja – o Credo dos Apóstolos, o Credo Niceno, etc., estão dando cada vez mais ao corpo de Cristo as raízes fundamentais da ortodoxia. O Livro de Oração Comum e outros recursos litúrgicos também interagem com o culto e a adoração espontânea nas Igrejas de convergência. A Mesa do Senhor se celebra com uma maior compreensão da santidade do acontecimento e as Igrejas seguem o ano cristão e o calendário eclesiástico mais consistentemente como um meio de levar o povo a uma viagem anual de fé. Todas essas expressões dão às comunidades locais uma conexão maior com a Igreja mundial e com a Igreja através da história.

6. Uma maior participação dos sinais e dos símbolos no culto através das cruzes, da arte cristã e das vestes clericais.
A Igreja contemporânea começou a recuperar a arte para Cristo. Neste movimento, o uso de sinais e símbolos serve como a representação maior da verdade. Desta forma, outros símbolos aparecem também como pontos de contato para unir duas realidades: o sinal e o símbolo exterior e a realidade interna e espiritual. As cruzes e as velas agora adornam procissões em algumas Igrejas que por anos tiveram a ostentação como um sinal da morte da fé essencial. Alguns pastores tornaram usuais as vestes clericais em vários serviços, cultos e celebrações da Igreja. Tudo isto serve como um sinal e enriquece a realidade espiritual de ser unido com Cristo e identificando com a fala profética estendida a toda Igreja que diz: “Sejam um”.

7. Um compromisso contínuo até a salvação pessoal, o ensinamento bíblico e o trabalho e ministério do Espírito Santo.
Alguns que olham esta “nova direção” dos evangélicos ou carismáticos estão ainda céticos. Nesse sentido, nota-se claramente uma preocupação de que essas Igrejas de convergência abandonem sua herança e o valor da infalibilidade bíblica e da conversão pessoal e se percam comprometendo os elementos litúrgicos/sacramentais. Com freqüência, essa preocupação surge de experiências pessoais prévias e negativas com certas expressões da Igreja ou um estereótipo errôneo. Aqueles que observam as Igrejas litúrgicas/sacramentais estão geralmente preocupados que suas Igrejas aceitem expressões mais conservadoras ou fundamentalistas da fé e da prática.
Este movimento, definitivamente, não é o abandono de uma corrente por outra mas é uma convergência. A obra de Deus é inclusiva e não exclusiva, levando adiante cada elemento que foi identificado. Dessa forma, temas como evangelismo, missões e a obra do ministério pelo poder do Espírito, permanecem intactos nesse caminho. O poder de Deus continua a ser liberado de forma maravilhosa na vida das pessoas, produzindo a conversão, a santidade, a liberdade e a mudança de vida.
A herança bíblica, rica e essencial, da Igreja no poder e na primazia da Palavra tem sido mais completamente desenvolvida quando as Igrejas dão mais tempo no culto à leitura em conjunto da Bíblia. Isto cumpre a admoestação de Paulo a Timóteo “dedique-se a ler as escrituras, a pregar e a ensinar”. Ironicamente, em um domingo pela manhã, geralmente, se lêem mais as Escrituras geralmente em um serviço litúrgico tradicional do que nas reuniões evangélicas ou carismáticas.


Conclusão

O futuro da Igreja será impactado significativamente pelo Movimento de Convergência. Os muros entre grupos e denominações são véus que se podem romper abertamente, dando às outras ramificações do cristianismo uma maior oportunidade de experimentar outras formas de fé e prática.
Quando o Movimento de Convergência se consolida, denominações encontram crescimento numérico e refrigério nas suas Igrejas. A grande quantidade de ingresso de pessoas, com vários níveis de contatos nessas Igrejas, trás uma vitalidade para a antiga fé que é vibrante e forte. Sua devoção intensa pelas formas antigas será contagiante e será acolhida por aqueles que perderam seu entusiasmo.
As trajetórias educativas formais e informais em várias correntes podem chegar a ser muito mais extensas em seu alcance, dirigindo-se a temas que podem ser a teologia e as práticas sacramentais, os ritos de iniciação, a obra do Espírito Santo, etc.
O Movimento de Convergência abrirá também maiores oportunidades para recursos e ministérios compartilhados devido à arquitetura e a disposição das Igrejas em serem conduzidas aos elementos mais comuns do culto de diferentes correntes. Os enfoques do ministério chegarão a ser também mais semelhantes, permitindo uma maior variedade de Igrejas que trabalhem conjuntamente no evangelismo, no discipulado, na ação social e na vida da comunidade cristã.
Nos versos finais do Antigo Testamento, existe uma promessa referente ao espírito de Elias que converterá o coração dos pais ao coração dos filhos e o coração dos filhos ao coração dos pais. Ao mesmo tempo, esses versos vão sendo usados em nossos dias para caracterizar a necessidade de converter os valores das famílias. Existe também a esperança que um novo espírito se derrame sobre a Igreja e faça converter os corações desta geração de crentes até aos pais apostólicos e outros que formaram a fé essencial idealizada nos séculos posteriores à ascensão de Cristo. Eles Imaginaram e trabalharam por um cristianismo que era ortodoxo e duradouro de geração a geração, operando na estreita aderência à revelação de Cristo para a Igreja. A Igreja do Século XXI olha agora com entusiasmo os pais da fé e descobre nova vida nas formas e estruturas que Deus construiu em seu meio.

Autoria : Arcebispo Wayne Boosahda e Bispo Randy Sly - Biblioteca Completa do Culto Cristão, Robert Webber, 1992