domingo, 1 de abril de 2018

A salvação não exige nada além da fé (verdadeira)


Hoje, escrevo este artigo a fim de defender a doutrina bíblica da justificação/salvação pela fé apenas (conhecida como "sola fide"). Essa doutrina é, a meu ver, a principal marca distintiva do protestantismo, e aquilo que lhe dá toda a coerência lógica e teológica como ramo da Cristandade a parte. Se alguém o negar, e quiser ser coerente, automaticamente deveria abraçar a cosmovisão católica romana ou ortodoxa oriental. Por essa doutrina da "sola fide", muitos foram presos, torturados e queimados vivos. Agora, depois de cinco séculos, muitos dos ditos "protestantes" tentam voltar à opressão e insegurança gerada pela práxis e ensino da Igreja Medieval. Ao afirmarem que podemos perder a salvação por usar bermudas ou barba (para os homens), brincos e batom (para as mulheres), experimentar bebida alcoólica, torcer por um time de futebol, jogar RPG, ou mesmo afirmar com certeza que um verdadeiro cristão que se suicida vai, infalivelmente, para o inferno, muitos pastores estão cuspindo sobre as cinzas dos reformadores.

Vários versículos do NT, especialmente da epístola aos Romanos (que trata de forma especial de temas relativos ao pecado, à graça, à predestinação e à natureza humana) dão base para o ensino apregoado pelos reformadores, de que a salvação independe de nossas obras, sendo pura graça (favor imerecido) da parte de Deus. Vamos conferir alguns deles:

"E todos nós recebemos também da sua plenitude ,e graça por graça" (Jo 1.16)

"Estando nós ainda mortos em nossas ofensas, nos vivificou juntamente com Cristo(pela graça sois salvos, (Ef 2.5)

"Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós ,é dom de Deus" (Ef 2.8)

"Sendo justificados gratuitamente pela sua graça, pela redenção que há em Cristo Jesus" (Rm 3.24)

"...mas o justo pela sua fé viverá" (Hc 2.4)

"Porque nele se descobre a justiça de Deus de fé em fé, como está escrito: Mas o justo viverá da fé. (Rm 1.17)

"Por isso nenhuma carne será justificada diante dele pelas obras da lei, porque pela lei vem o conhecimento do pecado." (Rm 3.20)

"Tendo sido,pois,  justificados pela fé, temos paz com Deus, por nosso Senhor Jesus Cristo;" (Rm 5.1)

"Que diremos pois? Que os gentios, que não buscavam a justiça, alcançaram a justiça? Sim, mas a justiça que é pela fé." (Rm 9.8)

"Ora, sem fé é impossível agradar-lhe..."(Hb 11.6)

"Quem crer e for batizado será salvo (Mc 16.16)

“Todo o que o Pai me dá virá a mim; e o que vem a mim de maneira nenhuma o lançarei fora”.(Jo 6.37).
 

Mas, alguém dirá, e as diversas passagens na qual Cristo afirma que se fizermos/deixarmos de fazer algo (falar mal do irmão, por exemplo) poderemos ganhar ou perder a salvação? É preciso, na interpretação desses versos, usar a distinção entre Lei e Evangelho. Lei é tudo aquilo que nos oferece o perdão e a salvação a partir de nossos próprios méritos, sendo condicional ao cumprimento dos termos por nós. Não está restrita ao bloco de textos que chamamos de Antigo Testamento, mas pode ser encontrada também no Novo, como as passagens aqui tratadas. Tal como o castigo de Tântalo, a Lei nos oferece algo necessário e desejoso que jamais poderemos alcançar por nós mesmos. Já o Evangelho é a promessa amorosa de Deus de redenção gratuita, na qual Ele nos concede a fé dirigida a Ele mesmo, pela qual somos salvos. Nenhuma pessoa em sua sã consciência acharia que pode cumprir todos os mandamentos da Lei instituídos por Cristo. Qual de nós nunca escandalizou ou escandaliza alguém (Mt 18.8)? Confesso que, com meu hábito de assistir televisão, escandalizo os irmãos da Igreja Deus É Amor. Qual de nós nunca chamou/considerou ou chama/considera um irmão como um tolo ou falso cristão (Mt 5.22; Rm 14.4)? Confesso que durante muito tempo, julguei como ímpios meus irmãos católicos romanos e ortodoxos orientais. Nenhum de nós consegue cumprir os mandamentos, nem os da lei mosaica, nem os da lei de Cristo (que, na verdade, não é uma nova lei, como alguns inimigos da "sola fide" costumam dizer, mas sim a antiga lei aperfeiçoada. Sugiro a leitura dos "Estudos no Sermão do Monte", de D.M. Lloyd-Jones para o melhor entendimento desta ligação). O que fazer então, já que se depender de nossa própria obediência, estamos perdidos? Jesus traz a resposta na passagem de Mateus 19.23-26: Para os homens, é impossível que eu e você, pobres pecadores, sejamos salvos (Is 59.2). Mas para Deus, nada é impossível. Assim, quando somos recebidos pelo Pai, somos totalmente perdoados de nossos pecados, recebemos o penhor irrevogável do Espírito Santo (II Co 1.22), e a obediência perfeita de Cristo nos é imputada (Rm 4.5). Somos salvos graciosa e gratuitamente. 

A ideia da salvação através dos próprios méritos é uma constante na história das religiões, pois representa a sabedoria carnal, terrena e diabólica na qual todos os homens estão presos desde o pecado de Adão. Mas a Bíblia nos apresenta outra coisa. Primeiro, ela nos rebaixa até o inferno, nos provando sobejamente que somos indignos, maus e vis, não possuindo aquilo que é necessário para alcançarmos a Deus. Depois, ela nos eleva até o céu, ao dizer que o próprio Deus é quem provê o que é necessário para a nossa salvação.
Mas, Giovani, você não está defendendo o antinomianismo? A Bíblia não nos diz que sem santificação ninguém verá a Deus (Hb 12.14)? Que na Cidade Santa apenas os justos entrarão (Ap 22.15)? Em momento algum eu defendi o antinomianismo! O que digo é que não devemos "por o carro na frente dos bois". As obras e a obediência não são a causa de nossa justificação/salvação, mas a consequência natural desta. Costumo utilizar a seguinte analogia: uma luz não brilha PARA ser luz, mas porque JÁ É luz. Assim sendo, a nossa obediência aos mandamentos de Cristo e as boas obras que realizamos devem brotar naturalmente de uma fé viva e verdadeira, como os frutos brotam naturalmente das árvores (Mt 12.33). Devemos mostrar a nossa fé (causa de nossa justificação) por nossas obras (consequencias de nossa justificação- Tg 2.18). Muitos homens de Deus, como Calvino, Spurgeon e Lloyd-Jones souberam perfeitamente disso, e conciliaram de forma bíblica a doutrina da perseverança dos santos (vulgarmente conhecida como "uma vez salvo, salvo para sempre") com a necessidade (também bíblica) de obediência, mortificação e boas obras. As obras agradáveis a Deus são aquelas que provêm da fé e do amor. Como disse Basílio de Cesareia, se servimos a Deus por medo de punição, somos escravos. Se servirmos visando recompensas, somos mercenários. Essas obras de fé são as obras das quais Tiago fala que, de certo modo,  justificam, pois derivam logicamente da fé verdadeira. Devemos lembrar que o termo grego “dikaioo”, traduzido por “justificação” e afins no NT, pode ter dois significados: reconhecer como justo (nesse sentido, somos justificados pela fé apenas), ou mostrar ser justo (as obras das quais Tiago fala).

No coração dos eleitos de Deus, a doutrina da salvação pela fé apenas, não produz aquela preguiça e indiferença que costuma brotar no coração dos falsos convertidos, mas sim uma gratidão enorme (Sl 116.12) e um desejo amoroso de se amar à Deus cada vez mais, cumprir seus mandamentos e fazer a sua obra. Que o diga Martinho Lutero, que após anos oprimido pelo medo da justiça divina (que ele não compreendia corretamente), encontrou a paz na misericórdia infinita de Deus.

Analisando a "sola fide" historicamente, alguns poderiam argumentar que ela foi criticada pelos Pais da Igreja. Nessa colocação, devemos observar algumas coisas: 1. Os Pais da Igreja, por mais que tenham sido excelentes teólogos e os primeiros exegetas, não eram infalíveis. Como protestantes, aceitamos a Bíblia como única regra de fé. Portanto, se as Escrituras afirmam a sola fide, mesmo que todos os Pais a negassem, ela seria verdade. 2.Em muitos trechos, os Pais parecem afirmar, sim, que a salvação é pela fé apenas, como na I Epístola de Clemente aos Coríntios e na Demonstração da Pregação Apostólica, de Irineu, além de escritos de Agostinho e muitos outros. . 3.Temos que entender que os Pais viveram num período conturbado, em que as heresias gnósticas e maniqueístas, pregando um fatalismo extremo e o antinomianismo, forçaram eles a defender a necessidade de boas obras para a vida cristã. Mas, se eles ressuscitassem na época na Reforma protestante, em que o perigo era exatamente o contrário (excesso dado ao papel humano na salvação), provavelmente teriam manifestado uma outra faceta.

Mesmo na teologia medieval, alguns teólogos tenderam, em seus escritos, para a ênfase na fé como instrumento de justificação, como Bernardo de Claraval (de quem Lutero foi um profundo admirador) e Jerônimo Savonarola (em seu comentário ao "Miserere", o Salmo 51).
Quando eclodiu a Reforma protestante, todos os seus ramos ortodoxos adotaram a doutrina da salvação pela fé apenas como uma marca doutrinária importante. Milhares de almas que viviam oprimidas sob severo legalismo passaram a ter acesso à pregação bíblica e à leitura das Escrituras, descobrindo que Deus salva a todo aquele que verdadeiramente crê nEle, à parte de frágeis obras humanas.

Vejamos alguns trechos de documentos confessionais de igrejas protestantes, que afirmam categoricamente a salvação pela fé apenas:

"Somos reputados justos perante Deus, somente pelo mérito de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo pela Fé, e não por nossos próprios merecidos e obras. Portanto, é doutrina mui saudável e cheia de consolação que somos justificados somente pela Fé, como se expõe mais amplamente na Homilia da Justificação." (39 Artigos de Religião, da Igreja Anglicana)

"I. Os que Deus chama eficazmente, também livremente justifica. Esta justificação não consiste em Deus infundir neles a justiça, mas em perdoar os seus pecados e em considerar e aceitar as suas pessoas como justas. Deus não os justifica em razão de qualquer coisa neles operada ou por eles feita, mas somente em consideração da obra de Cristo; não lhes imputando como justiça a própria fé, o ato de crer ou qualquer outro ato de obediência evangélica, mas imputando-lhes a obediência e a satisfação de Cristo, quando eles o recebem e se firmam nele pela fé, que não têm de si mesmos, mas que é dom de Deus. (Confissão de Fé de Westminster, da Igreja Presbiteriana).

"Ensina-se também que não podemos alcançar remissão do pecado e justiça diante de Deus por mérito, obra e satisfação nossos, porém que recebemos remissão do pecado e nos tornamos justos diante de Deus pela graça, por causa de Cristo, mediante a fé, quando cremos que Cristo padeceu por nós e que por sua causa os pecados nos são perdoados e nos são dadas justiça e vida eterna. Pois Deus quer considerar e atribuir essa fé como justiça diante de si, conforme diz São Paulo em Romanos 3 e 4." (Confissão de Augsburgo, da Igreja Luterana)

"A salvação é nos oferecida pela graça mediante a fé no sacrifício de Jesus  Cristo  na  cruz  do  Calvário.Ela  é  eterna, completa  e  eficaz."(Declaração de Fé, da Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil).

No meio evangélico atual, fortemente influenciado pela heresia semipelagiana, muitos desinformados pensam que são protestantes por não terem imagens na igreja, por não batizarem crianças, por não crerem na presença corporal de Cristo na eucaristia nem na regeneração batismal. Ora, Lutero aceitava tudo isso! Para ele, as grandes marcas de identidade da Reforma que ele e outros desencadearam eram "sola scriptura" (as Escrituras como única regra de fé), "sola gratia" e "sola fide" (salvação apenas pela graça, por meio da fé apenas). Por "sola fide", entendemos que todos os nossos esforços são inúteis para a salvação, devendo nós descansar totalmente na graça de Deus. Significa que obras não salvam. Que a nossa frágil obediência não pode suportar a severidade do juízo de Deus. Em resumo, a fé apenas salva. Calvino levou a "sola fide" ainda mais longe, ao afirmar que um verdadeiro cristão não poderia perder a salvação. A doutrina da salvação pela fé apenas foi uma constante que uniu os reformadores. Não é a forma de batismo, a visão eucarística e o estilo de culto que fazem um protestante, mas a aceitação das cinco solas (além das três já citadas, temos  a "solus Christus"-apenas Cristo, e a "Soli Deo Gloria"-glória somente a Deus).

Notemos que a negação do princípio de que a salvação é pela fé apenas, gerou na Igreja Romana tudo aquilo que, atualmente, nós consideramos errado, e que nos separa dela. Se a salvação não é pela fe apenas, só um tolo afirmaria que tem certeza de salvação. Pois, por mais que nos esforcemos, sempre temos algum erro. E, como disse o apóstolo, se alguém desobedece a um ponto da lei, é como se quebrasse todos. Logo, sem o "sola fide", não posso ter certeza de minha salvação, e devo buscar auxílio em quem ou no que seja mais santo do que eu: santos mortos, a Mãe de Deus, relíquias, a hierarquia da igreja, indulgências, esmolas, boas obras, orações para os falecidos,etc. Assim, o erro mestre do papado foi a negação da salvação pela fé apenas, que pode até mesmo ter se propagado, no passado, pela ambição de bispos corruptos, ansiosos por vender salvação ao povo e ter um rebanho que os seguisse sem questioná-los.

Nosso pastor é Jesus Cristo. E como bom Pastor que é, nunca deixa que suas ovelhas se percam. É normal que as ovelhas se desviem e ajam de maneira como não deveriam, mas o verdadeiro Pastor sempre as levará de volta ao redil. Como Cristo poderia dizer ao Pai, ao lhe entregar o Reino no final de tudo: "Pai, tal ovelha tua comeu o que não devia,  por isso eu não a conduzi até o descanso eterno"? Bons pastores não levam em conta os eventuais desvios das ovelhas, mas sempre as reconduzem ao caminho correto.

Sinceramente, não consigo entender o fato de muitos irmãos, em diversos grupos da Cristandade, negarem a salvação pela fé apenas, diante do tremendo evento da encarnação e do horrível espetáculo da cruz de Cristo. Porque ele sofreu tanto, viveu tão pobremente, foi tão injustiçado, experimentado nas dores e fadigas, e teve que suportar a severidade do juízo do Pai, se em última análise a salvação depende de minha própria perseverança e das obras que faço (ou deixo de fazer, em alguns casos, coisas mínimas)? Você que creu e foi batizado (Mc 16.16), que recebeu o plano de redenção de Cristo e nasceu de novo (Jo 3), não fique angustiado, morrendo de medo de perder a salvação por algum pecado que porventura cometa as vezes. Cristo sofreu demais por você, conhece a sinceridade do teu coração, e é infinitamente sábio. Não dê ouvidos a pastores teologicamente e biblicamente confusos que ficam ensinando que a cada vez que pecamos (mesmo em coisas pequenas), perdemos a salvação. È uma vergonha inominável que, em muitas igrejas evangélicas, alguns pastores ainda julgam dessa maneira. Nossos irmãos católicos estão mais crentes na graça do que estes protestantes de araque, visto que na Igreja de Roma, ao menos há a purificação do purgatório no caso de pecados não muito graves (Aliás, falando nisso, você sabia que a própria Igreja de Roma está avançando nessa matéria? Consulte a "Declaração Conjunta sobre a Doutrina da Justificação").

Com o coração transbordando de gratidão à misericórdia divina, oremos:
Graças te dou, Pai Todo-Poderoso, por me salvares mediante a fé apenas, não levando em conta a debilidade de minha obediência ou de minhas obras. Que eu possa ser fiel a esse chamado, e com o mais puro amor transitar o caminho da santidade e trabalhar em prol do teu reino. Por Cristo, nosso Senhor. Amém.

"Sou chamado? Que trarei
Como oferta ao meu Rei?
Pobre, cego e nu sou eu,
que, trêmulo, me prostro aos teus pés.
Só o pecado tenho de meu;
Mas pecado não expia pecado.

Fui chamado? - um herdeiro de Deus!
Lavado, remido, por precioso sangue!
Pai, leva-me em tua mão,
Guia-me àquele país melhor,
Onde minha alma estará descansada,
Junto aos braços do meu Salvador."

Antigo hino batista

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