segunda-feira, 12 de março de 2018

12 de Março - Memória de Gregório Magno, bispo de Roma e Pai da Igreja

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Hoje, as Igrejas Católicas Orientais, a Igreja Anglicana e a Igreja Luterana celebram a memória de Gregório Magno (c. 540-604 d.C.)1.  Esse grande papa (bispo de Roma) e um dos quatro grandes Pais Latinos da Igreja, deu uma série de contribuições à Cristandade. Jovem inteligente e de origem nobre, recebeu excelente educação e chegou a ser prefeito de Roma. Posteriormente, distribuiu sua fortuna aos pobres e tornou-se monge, inspirado pelo carisma beneditino (uma de suas obras literárias, intitulada “Os Diálogos”, conta a vida de vários santos, incluindo S. Bento), fundando mosteiros na Itália e Sicília. Aclamado bispo de Roma, dedicou-se a "colocar em ordem" a Itália do início da Idade Média, fragmentada e empobrecida pelos embates dos reis bárbaros que sucederam o Império Romano do Ocidente e uma série de dificuldades.

      Gregório contribuiu com a teologia, combinando erudição e piedade popular, escrevendo várias obras, entre as quais se incluem a "Regra Pastoral", comentários bíblicos e cartas. Enviou o missionário Agostinho (não confundir com o famoso Agostinho de Hipona, que viveu cerca de dois séculos antes deles) para evangelizar os reinos anglo-saxões, embelezou a liturgia romana, criando livros litúrgicos que estabeleciam com maior precisão alguns ritos e o calendário litúrgico que a Igreja já utilizava, como um Sacramentário e um Antifonário. Mas, talvez a sua maior contribuição para o culto cristão de todas as épocas tenha sido aquilo que ficou conhecido como "canto gregoriano" (na época chamado de "canto romano"). Esse tipo de música sacra, por sua beleza, sublimidade e radical contraste com a música secular, foi considerado pelo pastor presbiteriano João Wilson Faustini, especialista em música sacra, como um dos tipos mais adequados ao culto divino. Entre os poemas que Gregório escreveu, temos o hino quaresmal "Audi, benigne Conditor" e o cântico matutino "Nocte surgentes", cujas traduções podem ser encontradas no Hinário Episcopal, da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil. Popularizou os textos do Pseudo-Dionísio. Faleceu em 604, após 14 anos a frente da sé de Roma. Posteriormente, foi canonizado e declarado um dos Doutores da Igreja.

    Parte do legado de Gregório pode ser considerado estranho ou até mesmo nocivo por um protestante. Ele foi, de certo modo, o “primeiro medieval”, dando grande ênfase ao papel sacerdotal do clero e ao caráter sacrificial da missa. Também aprovou a doutrina do purgatório, as orações pelos mortos e o uso de imagens sacras (às quais chamava de Bíblia dos iletrados)2. Mas apesar dessas discordâncias, devemos sempre aproveitar o legado teológico e espiritual deste homem, que em sua humildade chamava a si mesmo de "servo dos servos de Deus".

     Vejamos algumas citações de Gregório Magno:

     "A terra, de fato, não ocultou o sangue de nosso Redentor, pois qualquer pecador, ao beber o preço de sua redenção, o proclama e louva e, como pode, o manifesta aos outros.
A terra não cobriu também o seu sangue porque a santa Igreja já anunciou em todas as partes do mundo o mistério de sua redenção"(Comentários sobre o livro de Jó).

    "Tomé apalpou e exclamou: "Meu Senhor e meu Deus!" Jesus lhe disse: "Creste porque me viste?". Ora, como diz o apóstolo Paulo: "A fé é a certeza daquilo que ainda se espera, a demonstração de realidades que não se vêem". Logo, está claro que a fé é a prova daquelas realidades que não podem ser vistas. De fato, as coisas que podemos ver não são objeto de fé, e sim de conhecimento direto. Então, se Tomé viu e apalpou, por qual razão o Senhor lhe disse: "Acreditaste, porque me viste?" É que ele viu uma coisa e acreditou noutra. A divindade não podia ser vista por um mortal. Ele viu a humanidade de Jesus e proclamou a fé na sua divindade, exclamando: "Meu Senhor e meu Deus!" Por conseguinte, tendo visto, acreditou. Vendo um verdadeiro homem, proclamou que ele era Deus, a quem não podia ver."(Homílias sobre os Evangelhos).

    "Ninguém pode presumir ensinar uma arte senão depois de tê-la aprendido por meio de um estudo atento e meditado. Visto que o governo das almas é a arte das artes, quão grande é a temeridade dos que assumem o magistério pastoral sem ser para isso preparados! Quem não sabe que as feridas da alma são mais secretas do que as da carne? Todavia, acontece frequentemente que alguns, não conhecendo os ensinamentos do Espírito, não temem de professar-se médicos da alma, enquanto quem ignora as virtudes terapêuticas dos remédios se envergonharia de se apresentar como médico do corpo." (Regra Pastoral).

    "Propício perscrutador dos corações/Conheceis a fraqueza das nossas forças/Mostrai àqueles que se voltam para Vós/A graça da remissão"(segunda estrofe do hino Audi, benigne Conditor).

Notas:
1 Data de sua morte. Os católicos romanos o celebram em 3 de setembro, data do início de seu pontificado.
2 Eu sou protestante, mas não tenho dificuldade alguma com o uso de imagens sacras, desde que estas sejam usadas como obras de arte, estímulo ao pensamento e “janelas” para o sobrenatural.

FONTES:

AQUINO, Felipe(org.)  Riquezas da Igreja. Editora Canção Nova.
GREGÓRIO MAGNO. Regra Pastoral. Coleção “Patrística”. Editora Paulus.
FAUSTINI, João Wilson. Música e Adoração. SOEMUS.
Hinário Episcopal. Livraria Anglicana.
Dicionário Cultural do Cristianismo. Editora Loyola.
Novo Dicionário de Teologia. Editora Hagnos.
GEQUELIM, Giulio. Hino Quaresmal: Audi, benigne Conditor. http://www.saopiov.org/2009/03/hino-quaresmal-audi-benigne-conditor.html

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